já leram.


Deserto

Capítulo 1

Havia algo diferente no apartamento aquela manhã.
Talvez fosse a falta do barulho do chuveiro ligado, sempre impecavelmente entre sete e sete e quinze, talvez fosse a falta do cheiro único e incomparável do café mais cuidadosamente preparado da região, por mãos atenciosas e de muita experiência em tal feito, devido aos anos em que tomara aquela função para si na pensão dos pais. Agora, a moça dos cabelos curtos e olhos sempre bem delineados, apenas se dava ao luxo de preparar aquela bebida fervente e afrodisíaca para si mesma.
Naquela manhã, porém, não se ouvia o típico barulho de gotas caindo e o zumbido constante da cafeteira enquanto a dona da casa se arrumava. Não havia a TV ligada sempre no noticiário da manhã, para se informar de tudo que perdera nas horas passadas em projetos e mais projetos, além de informá-la qual o melhor trajeto a ser feito para o seu trabalho. Não se ouvia, também, as batidas agudas das pontas do salto da mulher, enquanto ela andava de um lado para o outro, pegando suas coisas para sair.
A sinfonia daquela manhã era um pouco diferente e muito mais agradável, embora mais desesperada do que muitas das manhãs atrasadas, quando os papéis voavam e o café acabava sendo tomado apenas pela metade, deixando a xícara manchada de batom vermelho e café preto suja em cima da pia.
Não.
Naquela manhã, tudo estava diferente. De uma forma boa, ela achava. Todavia, ainda não tinha muita certeza sobre.
A melodia daquela manhã era mais sobre zípers e portas da madeira. Os pés estavam ainda descalços, o cabelo ainda estava levemente bagunçado do banho recém tomado e não havia rastros de maquiagem alguma no rosto da mulher de vinte e nove anos, a mais promissora designer de interiores da sua geração.
Promissora. odiava aquele termo. De acordo com ela, aquele termo dizia que ela ainda seria bem sucedida, mas ela achava que já o era, obrigada. Seus trabalhos sempre acabavam ganhando um prêmio ou outro, exceto o fiasco de três anos atrás, que não dera em nada. O último, porém, tinha sido agraciado com um dos dez melhores projetos de arquitetura e urbanismo do ano no país. E estava na lista dos cinquenta melhores do ano no mundo, dando a ela a chance de subir mais alguns degraus da escadaria do sucesso.
Na parede da sala, orgulhosamente, havia um quadro que destoava um pouco da decoração do ambiente, talvez por ser recente demais e os olhos ainda não estivessem acostumados a ele. Nele, havia um recorte da lista dos 30 abaixo dos 30. A lista dos 30 jovens que se destacavam em suas posições e tinham menos de 30 anos, onde saíra naquele ano.
Estava orgulhosa de si mesma, dos prêmios que conquistara e da sua carreira que estava decolando. Além do salário, é claro, que aumentara outra vez. Isso, com certeza, era uma premiação divina às provações que ela tivera que passar com o seu parceiro intragável de projeto.
Balançou a cabeça, tentando desnublar os pensamentos, enquanto rechecava sua mala pela quinta vez, tentando não esquecer nada. Tinha o dom de listar mentalmente todos os objetos de suma importância antes de viagens, mas sempre acabava esquecendo ao menos uma coisa importante, como sua escova de dentes.
Era isso.
correu para o seu banheiro e abriu os espelhos em cima da pia, retirando sua escova de dentes do suporte e procurando uma de suas caixinhas de emergência. Guardou-a, então, com a pasta de dentes e o fio dental. E movimentada por sua rompância, acabou recolhendo alguns absorventes internos para acoplar em sua necessaire. Aproveitou que estava ali e penteou seus cabelos curtos, maquiou os olhos e passou seu costumeiro batom vermelho. Achava que, embora sua maquiagem cotidiana fosse simples, ficava com uma cara de mulher fatal que a permitia brigar diariamente na sua profissão, tendo homens majoritariamente como companheiros de trabalho e subordinados.
Olhou o relógio em sua cabeceira ao voltar para o quarto, vendo que tinha tempo, embora pouco. Guardou seus novos pertences e fechou a mala de uma vez - que a sorte a abençoasse em não esquecer nada daquela vez - e calçou os tênis que separara para aquela viagem até Porto Alegre, onde suas férias extras a esperavam, mais um dos prêmios adoráveis e super merecidos que ela recebera, embora não tivesse tanta certeza do que estava fazendo.
Um cruzeiro de um mês com todos os destaques da empresas que faziam parte da União Brasileira de Arquitetura e Urbanismo, de Porto Alegre até o Caribe, onde passariam cinco dias e voltariam de avião para suas respectivas cidades. Gente de todo o país, que trabalharam em diversos projetos maravilhosos, estariam naquela viagem. E a única pessoa que conhecia era o seu intragável parceiro de projeto.
Precisaria corrigir isso rapidamente.
Convencida que estava tudo em ordens, foi até sua bolsa de mão e colocou-a sobre os ombros, voltando para a sua mala, em cima da sua cama, e colocou-a no chão. Arrastou-a até a sala, pegando a chave da porta que deixara sobre a mesa, quando o seu celular tocou. Pôs a bolsa sobre a mesa e tirou o aparelhinho vibrante de dentro dela, fazendo uma careta ao olhar a bina.
- Oi, mãe - cumprimentou-a educadamente, embora não pudesse ser em pior hora.
“Oi, filha! Tô atrapalhando?”
respirou fundo antes de responder, para não dizer a verdade.
- Claro que não, mãe, você nunca atrapalha - ludibriou a mãe, que riu.
Márcia não era uma mulher boba e, acima de todas as coisas, conhecia a filha muito bem para identificar sua impaciência, mesmo que com poucas palavras. Porém, naquele momento, estava cega. Cega de preocupação de mãe ao desconhecido para ela.
“Só queria saber como andam as coisas, filha. Você arrumou sua bolsa direitinho? Não esqueceu nada?”
- Não, mãe, tá tudo certo. - respirou fundo mais uma vez e resolveu que sua melhor opção era continuar andando e rezar para que a ligação caísse quando ela entrasse no elevador. - Como andam as coisas aí na pensão?
Márcia, além de uma super mãe, era uma mulher muito centrada. Haviam poucas coisas que a deixavam deslumbrada e animada como uma adolescente. Falar das conquistas das suas filhas, sobretudo de , que se tinha muito para falar, era uma dessas. A outra, era a pequena pensão que sua família cultivara através dos anos e sustentara a todos até então.
“Ai, filha, você não sabe o que deu no seu pai”. já estava rindo antes mesmo de se começar a história. Histórias com seu pai “dando” pra fazer alguma coisa sempre eram hilárias. “Ele resolveu que os hóspedes deviam ter Wi-Fi, mas não quis chamar nenhum técnico, você sabe como ele é”. concordou, empurrando sua mala para fora do seu apartamento e fechando a porta atrás de si. “Passou o dia embolado com fios, lendo o tal do manual sem parar, até que dormiu. No chão mesmo”. riu, balançando a cabeça. Soltou um “bom dia” apressado para o seu vizinho que abriu a porta para pegar o jornal que o porteiro sempre deixava em seu carpete. “A Branca tinha ido na casa de uma amiga e chegou tarde em casa e encontrou o pai dormindo. Instalou o tal do Wi-Fi em cinco minutos. Seu pai acha que foi ele, antes de dormir”. soltou uma gargalhada, arrastando sua mala até a porta do elevador, apertando o botão para descer, e sua mãe a acompanhou. “Sua irmã está sendo tão responsável com a pensão, filha. Tá fazendo todas as coisas pra ajudar a gente. Acho que ela ama isso aqui tanto quanto eu”.
fechou os olhos e tentou controlar seu gênio, sempre tão forte, para evitar ter que dar a resposta que queria para sua mãe. Uma daquelas mágoas que o tempo nunca curava. Márcia sempre instigava a ajudar na pensão, mas ela não gostava muito. Estava sempre atolada de estudos, trabalhos e responsabilidades que sua genialidade exigia, mas que os pais não compreendiam na época. As discussões na adolescência e no início da vida adulta, antes que ela conseguisse sua independência financeira e se mudasse para seu próprio lugar, tinham sido constantes. E agora lá estava Márcia, lhe dizendo que a sua irmãzinha estava ouvindo-a e fazendo as coisas que nunca fora capaz.
- Fico feliz, mãe - disse, azeda. - Que ao menos uma filha deu pra o que você queria.
A ligação ficou muda por um momento, enquanto Márcia engolia o choque que as palavras da sua filha mais velha a causara.
, não foi isso que eu quis dizer, eu só…”
- Tudo bem, mãe - a interrompeu, já arrependida. O elevador apitou e lá estava a desculpa perfeita que ela precisava para se livrar da ligação incômoda - Olha, preciso desligar. O elevador chegou. Tchau, mãe.
“Tchau, filha. Boa viagem” Márcia se despediu, um pouco contrariada em não resolver aquela pendenga no mesmo momento. “Me liga quando chegar no barco. Te amo”.
suspirou, amolecida.
- Também te amo, mãe - murmurou, antes de desligar e correr com sua mala para dentro do elevador, antes que o mesmo se fechasse.

- Merda!
Ele sacudiu o pé, os dois dedos menores quase bradando e fervilhando pela centésima quinquagésima terceira vez que ele chutava a mesinha de enfeite ao descer as escadas da casa de sua avó.
Não mais sua casa há três meses. Ele tinha que comemorar o fato de que conseguira se livrar das garras de sua mãe e de sua avó há três meses, embora sua festa não tivesse durado muito; aparentemente, se você tentasse enfiar os restos de comida pelo ralo da pia, em algum momento, o encanamento da casa se entupia além do conserto. Então, há alguns dias, ele tivera que se mudar de volta para a casa da avó e esperar o conserto da sua própria.
Isso tinha dificultado sua tarefa atual: arrumar uma mala para viagem. Vendo que não conseguiria fazer uma mala decente, resolveu colocar tudo o que levara para ali. Se estava sobrevivendo naquela casa com aquelas coisas, com certeza conseguiria sobreviver um mês em um cruzeiro.
O problema era que ele tinha resolvido fazer isso apenas duas horas antes do seu vôo. Agora, obviamente, estava quase atrasado para ir ao aeroporto e, por isso, estava evitando o inevitável encontro com uma de suas progenitoras e seus discursos precedentes às viagens e responsabilidades que ele ouvira através dos anos.
Uma vergonha, ele sabia. Já passara dos trinta e sua mãe e sua avó ainda o tratavam como um garotinho, envergonhando-o na frente de seus colegas e das mulheres que ele eventualmente levava em casa. Por conta disso, e do dinheiro que ele gastava em motéis também, resolvera encontrar seu próprio espaço. Mesmo que a ideia não tenha dado certo por muito tempo.
Olhou para sua mala, caída e meio torta há alguns passos dali. O barulho devia ter acordado todos no quarteirão e agora seria basicamente impossível sair de casa sem ser notado. soltou um suspiro derrotado e deixou-se ouvir o barulho de passos se aproximando dele e da sua pequena confusão ao pé da escada.
Sua mãe apareceu apressada na curva do corredor que levava até os jardins. Os cabelos dourados estavam ligeiramente bagunçados, talvez pela falta do penteio ao acordar ou pela corrida ao ouvir o barulho do quase tombo de . Sua franja estava meio de lado e apontava um pouco para cima, dando a ela uma aparência um pouco cômica. Sua camisola rosadinha balançava ao redor dela quando ela parou no meio do caminho, encarando um um pouco desajeitado, calçando seu chinelo novamente e fazendo careta para o machucado que arrumara.
- Você está bem? - Andrea perguntou, ansiosa. Terminou o espaço entre os dois com mais alguns passos e pareceu fazer uma análise visual inteira do seu filhote em poucos segundos. - Se machucou?
- Não, mãe - respondeu, sem paciência. - Eu só tropecei e derrubei a mala.
Pegou sua mala no chão, o que causara a maior parte do barulho, e jogou contra suas costas, prestes a escapar daquela cilada em que se metera na primeira oportunidade livre.
- Você já vai? - perguntou, com a vozinha triste e desolada.
concordou com a cabeça, entortando os lábios. Tinha que olhar para baixo para encarar sua mãe, uns vinte centímetros menor que ele. já se perguntara se era adotado, mas o formato de seus olhos e da sua boca não mentia a origem, era um . Sua mãe pouco falava de seu pai e o nome dele nem constava em seus documentos, mas o pouco que ela dizia, lhe informara que ele era tão alto quanto o homem.
- ‘Tô atrasado, na verdade - respondeu, displicente.
Ele se aproximou para beijar o rosto da mãe, mas ela estava fazendo um biquinho adorável que lhe informava que iria começar a tentar fazer chantagem emocional. Isso acontecia com uma frequência irritante, dela ou de sua avó, que não entendiam porque ele precisava ir trabalhar, sair para festas ou sequer ir na padaria; se mudar, então? não precisava fazer nada disso. A família tinha seus investimentos invejáveis e uma fortuna para lá de gorda na conta.
Que ele planejava usar em mais alguns poucos anos, quando fosse abrir seu próprio escritório de arquitetura. Quando seu nome fosse só um pouquinho mais impactante e ele tivesse só um pouquinho mais de experiência. Se conseguisse um parceiro de tanto renome quanto ele conquistara até ali, talvez já fosse em tempo de abrir seu escritório, mas não confiava em ninguém para tal. Então, mais uns dois anos e ele estaria pronto.
- Você precisa mesmo ir? - perguntou, com a voz toda trabalhada em meiguice e convencimento.
respirou fundo e voltou a entortar os lábios curvilíneos, nem um pouco contente em ter que lidar com o comportamento exageradamente protetor de sua mãe àquela hora da manhã.
- Não - foi sincero. - Mas vai ser divertido e eu mereço, então eu vou.
Andrea não parecia convencida com a explicação meia boca que seu filho lhe dava, mas não quis ponderar. Já era ótimo que ele estivesse por ali nos últimos dias, via o menino se afastar pouco a pouco de debaixo de suas asas e não gostava muito disso; aquela história de morar sozinho tinha sido o cúmulo! A casa de sua família era imensa, ele não precisava de mais espaço.
Talvez, um pouco de tranquilidade e de férias o fizesse ver que não havia necessidade de se afastar dela e ele voltasse para a casa.
- Tudo bem. Você vai me ligar?
sorriu, verdadeiro e depositou um beijo na testa da mãe, os braços envolvendo-a, enquanto ela o abraçava de volta, com um pouco mais de esforço por seus braços mais curtos e a mala que ele mantinha em suas costas.
- Todo dia, mãe - concordou. - Preciso ir, mãe. Te amo.
Ele se afastou do abraço e Andrea o olhou com os olhos marejados pela pequena demonstração de carinho do seu filhote.
- Tudo bem, filho. Te amo também.
virou de costas para sua mãe, antes que o sentimentalismo da mulher o convencesse que aquela era uma péssima ideia, porque possivelmente o era. Todos os melhores profissionais da sua área estariam naquele cruzeiro, o que provavelmente era uma furada. Ele se divertiria ou passaria um mês vestindo uma conduta profissional tediosa? Não saberia dizer, mas preferia arriscar um mês daquilo do que ter que lidar com sua mãe e avó até seu apartamento ser consertado.
Ao chegar na porta da casa, já do lado de fora, se lembrou que esqueceu de pegar um táxi. E ali, onde morava, um bairro majoritariamente residencial, com casarões espalhados por todos os cantos, quase não passava nenhum daqueles veículos brancos mágicos. Xingou mentalmente, abrindo a parte externa de sua mala e pegando a chave de seu carro, amarrada à carteira (o único conjunto de objetos que ele se dignava a não perder nunca), e pôs-se a resmungar pela fortuna que ele pagaria de estacionamento.
Havia outra opção. Não estava muito contente com ela, porém.
Aproveitou a mala aberta e pegou o celular, colocando-o na boca e sustentando-o apertado em seus lábios. Com uma mão, segurava a carteira, girando a chave, presa por uma cordinha nela; a outra, toda marcada de vermelho, tinha sua mala e o peso, fazendo as juntas reclamarem um pouco.
Caminhou rapidamente até a garagem, destrancando a porta e jogando a mala no banco do passageiro. Ligou o carro e saiu da garagem, discando o número que sabia de cor.
“André” ele atendeu no segundo toque.
- Oi, chefe. Bom dia.
“Bom dia, . Vai perder o vôo?”
grunhiu baixinho que todo mundo sempre esperasse o pior dele. Ele não era assim tão enrolado, suas edificações continuavam em pé e bem firmes.
“Se for perder o vôo, se vira. A empresa só vai pagar uma vez”.
- Eu não vou perder o vôo! - reclamou.
“Certo. já passou pelo check-in. Me ligou para avisar. E você está… No trânsito, certo?”
Droga. Pensou . Era terrível que todos, principalmente seu chefe, soubessem da sua falta de responsabilidade com horários. Mas ele simplesmente não podia evitar, cinco minutos a mais na cama não faziam diferença até que faziam.
- Eu só preciso de um favor, André. Por favor.
“Tudo bem. Fala.”
respirou fundo e tentou explicar com poucas palavras. Mesmo com o celular em seu porta-moedas, no viva-voz, ele não gostava muito de falar no telefone enquanto dirigia. Por ser meio desligado e distraído, preferia prevenir que remediar.
- Não consegui pegar um táxi, então tô indo de carro. Tem como você ou um dos meninos pegar ele no aeroporto pra mim? Tem uma chave extra na minha mesa, terceira gaveta, dentro de uma caixinha de aliança.
“Você guarda sua chave em uma caixinha de aliança?” ele riu. soltou uma desculpa qualquer sobre aquele feito, que não colou muito bem. “Tudo bem. Me manda a vaga por mensagem e eu peço pro Ricardo ou pra Lorena pegar.”
- Obrigado, chefe! Você é demais!
André riu e ambos se despediram e desligaram. Agora, só tinha que descobrir como chegaria no aeroporto, estacionaria, mandaria a mensagem e faria o check-in em meia hora.

- D23… - estava lendo seu ticket de embarque com sua bolsa de mão a tiracolo, tendo despachado a mala para ter mais mobilidade na hora da viagem. Não gostava muito de despachar, porém, mas como, desta vez, a viagem era mais longa e ela tinha uma mala mais rechonchuda, achou melhor. - Te achei.
Encontrou sua poltrona no corredor, posicionou sua bolsa na parte de baixo do assento da frente, fechou a janela da sua fileira, mesmo sabendo que não era bem sua propriedade, visto que estava no corredor. Acomodou-se em sua poltrona e tentou relaxar, embora aviões costumassem lhe deixar um pouco nervosa.
Apertou as mãos no colo, ansiosa. Os passageiros estavam lotando o avião e ela ficou admirando-os procurarem seus lugares e os três funcionários, duas moças e um rapaz, auxiliarem aquela pequena multidão a guardarem suas malas de acordo com os procedimentos de segurança que fazia questão de saber de cor.
Quando a movimentação de passageiros começou a acalmar, puxou a cartela de procedimentos de segurança da bolsinha na poltrona na frente e se pôs e relembrar as posições mais seguras em caso de acidente. Porque ela gostaria de sobreviver, caso o avião caísse, embora esperasse que não acontecesse. Nunca tinha acontecido até então e que continuasse assim.
Foi enquanto repetia algumas informações mentalmente, e mexendo os lábios como uma retardada, que uma aeromoça passou ao seu lado e ela achou por bem atacá-la como uma zumbi desesperada por cérebro, mas, em seu caso, apenas ansiosa que aquilo começasse e acabasse logo.
- Oi! Oi! Com licença! - Chamou, mostrando boa parte do seu desespero em sua voz.
A aeromoça voltou até sua poltrona com um sorriso complacente de quem estava acostumada com gente nervosa para voar. Alguns surtavam nos minutos anteriores à decolagem e ela estava apostando que era uma dessas pessoas difíceis, gritando por ajuda e apertando a cartela de procedimentos de segurança. Tentou logo a pergunta que lhe deixaria com mais tranquilidade, rezando para que a mulher de cabelos curtos e olhos verdes amarelados aceitasse e não desse trabalho.
- Olá. Precisa de um calmante? - perguntou, educadamente.
piscou algumas vezes para a pergunta inusual que aquela aeromoça estava lhe fazendo. Pensou consigo mesma se precisava de um calmante e definiu que não, ela já tinha viajado várias vezes e embora ficasse tonta, principalmente na decolagem e no pouso, conseguia passar por aquilo sem remédios.
Mas não exatamente sem pirar. Claro.
- Não, tudo bem - disse. A aeromoça não acreditou muito naquela história, mas achou melhor fazer as vontagens da passageira. - Você sabe se vai demorar muito para… - respirou fundo, a barriga se revirando com o nervoso mesmo apenas à menção do fato. - … Decolarmos?
A aeromoça cerrou um pouco os olhos em direção a mulher, mentalmente criando um plano para lhe oferecer uma bebida qualquer com um calmante diluído pelo bem da viagem e dos outros passageiros.
- Em alguns minutos. Estamos terminando o embarque e as portas já vão ser fechadas.
engoliu a seco.
- Obrigada.
A mulher balançou a cabeça para e se afastou para uma das extremidades do avião. respirou fundo, tentando controlar seu coração, batendo com uma velocidade deliberadamente mais rápida e o seu estômago, que parecia dar cambalhotas e piruetas em sua barriga, mesmo que com pouco espaço para tal festa.
Olhou, então, para as duas poltronas ao seu lado, sabendo que uma delas deveria estar ocupada, com toda a certeza. Seu abominável companheiro de projetos, de prêmios e daquela viagem, já deveria ter chegado até aquele momento, mas ele era um atrasado crônico e ela não podia esperar diferente.
Sorriu à perspectiva de ir para aquela viagem sem aquele mala em sua cola. Até conseguiu relaxar, fechando os olhos e encostando a cabeça na poltrona.
Os auto-falantes do avião apitaram naquele momento, e a voz do comandante informou à tripulação para fechar as portas. riu e balançou a cabeça negativamente. Estalou o pescoço e, então, sua paz acabou.
- Com licença. Desculpe. Licença. - Ouviu a voz dele, mesmo a alguns passos, disputando espaço no corredor com os dois tripulantes que tentavam alcançar as portas, de onde ele entrara, para fechá-las. - Ah. Oi! - Cumprimentou mais a sua fileira que à .
Abriu o compartimento acima de suas cabeças e jogou a mala lá dentro com displicência, alarmando à terceira aeromoça que passava ali, naquele momento. Ela segurou a bunda da mala, que já planejava cair, e a empurrou para dentro com a graça de quem fazia aquilo com frequência e sabia exatamente a melhor posição para colocá-la.
- Obrigado! - a agradeceu, animado com a viagem e com a sorte de ter conseguido chegar na hora, e ainda ter enviado a mensagem para André enquanto descia as escadas rolantes até o seu portão de embarque. Tudo estava dando certo para ele até aquele presente momento.
Passou por , chutando seus pés e sua bolsa, com a devida desatenção e displicência que ele costumava reservar só para ela. Se estivesse usando seus usuais sapatos fechados de salto, talvez acabasse descalça, mas os tênis não a abandonavam com tanta facilidade.
- Mas que inferno! - resmungou ao tentar ajeitar sua bolsa de volta ao lugar seguro com os pés, enquanto ocupava a cadeira mais próxima da janela, deixando uma vazia entre os dois. - Por que você tem que ser assim, hein? Irresponsável, sempre atrasado, impossível…
Ela planejava continuar a lista de características de que não a agradavam, mas ele levantou suas mãos ao ar, pedindo que ela parasse com uma expressão indignada e com o tom de voz um pouco mais alto que o dela, controlado e educado, para respeitar a privacidade dos outros passageiros.
- Ei, ei, pera lá. Eu não estou atrasado. Estou dentro do avião e estamos para decolar. Eu estaria atrasado se, e somente se, eu estivesse lá fora nesse momento. Então eu não estou sempre atrasado. Só às vezes.
revirou os olhos com a explicação completamente ilógica que ele estava lhe dando sobre o seu comportamento. Achou, como sempre preferia, exceto quando ele lhe tirava totalmente a paciência, que a melhor opção era ignorá-lo, então se sentou confortável em sua cadeira, checando o cinto de segurança só mais uma vez, para então apertar os braços da poltrona, sentindo o avião começar a se locomover pela pista.
abriu a janela que fechara apenas para ser irritante; sabia que a mulher ficava tensa com viagens de avião e que a janela piorava o seu estado. Ela tentou ignorar, mas sua respiração estava começando a ficar cada vez mais difícil com o avião ziguezagueando pela pista.
- Dizem que se você respirar como um cachorro, o bebê sai mais rápido - soltou, para implicar.
Ela lançou-lhe um olhar fatal, planejando que ele se calasse só com esse seu feito, mas ao olhar em sua direção, acabou vendo pela janela, a paisagem passando rapidamente por aquele pequeno pedaço de vidro reforçado e o seu olhar fatal se desmanchou para um de total pânico.
- Será que você pode fechar a janela, por favor? - Pediu, engolindo o orgulho, com a voz fraquinha.
Ele apenas sorriu de lado, totalmente irritante e infantil, e se pôs a encarar a poltrona à sua frente, enquanto o avião começava a correr e ela sentia o tranco inevitável quando ele começava a levantar o vôo.
Após aquela primeira parte tensa, relaxava. Se não houvessem turbulências graves, e não parecia que teria, visto que o tempo estava bom, ela só voltava a ficar tensa na hora do pouso. Isso era, obviamente, tedioso aos olhos de . Principalmente quando a mulher definiu que era uma ótima hora para se tirar um cochilo e recuperar as horas de sono perdidas por causa de sua ansiedade, tirando um tapa-olho de dentro de sua bolsa e vestindo, não deixando nenhum espaço para ele e suas peripécias provocativas.
Depois de uma hora, estava tão entediado que passou a admirar a mulher adormecida ao seu lado. Era muita falta do que fazer, mesmo, ficar olhando para . Mas foi útil porque, ao observá-la, era óbvio que não estava dormindo. Ela mexia demais o nariz, apertava demais a mão no cinto de segurança e fazia umas caretas engraçadas como se estivesse imaginando algo que não lhe agradasse muito.
- Ei, você acha que vai ter muita gente lá? - tentou começar uma conversa amigável. Esperou por alguns segundos, mas a mulher não demonstrou vestígios de querer lhe responder, embora tenha se mexido desconfortável ao ouvir sua voz. - Lá no cruzeiro. Não devem ser tantas pessoas, quero dizer, o André disse que a UBAU fechou o navio só para os funcionários premiados. Se são cinquenta projetos, talvez seja uns dois ou três profissionais por cada? Umas cento e cinquenta pessoas ou duzentas. É demais pra um cruzeiro? O que você acha? ?
continuava impassível em seu sono fingido e a paciência de para a falta de empatia da mulher estava muito curta. Por isso, ele se debruçou sobre o assento vazio e levantou o tapa-olho dela, encontrando seus olhos abertos.
- Olá! - disse, animado.
respirou fundo, inflando as narinas e tentando não tacar qualquer coisa pesada na cabeça dele. Na verdade, pensou, tacar uma coisa na cabeça dele era definitivamente uma boa ideia. Lembrou de um livro que tinha deixado em sua bolsa caso ficasse com vontade de ler e se abaixou, pegando o exemplar e jogando-o em sua direção.
O efeito surtido foi um pouco diferente do desejado. Ao invés de ficar irritado com ela e os dois continuarem a brigar pelo resto da viagem, ele pareceu interessado no livro. levantou uma sobrancelha, voltando ao seu lugar e ele a agradeceu com um joinha, se pondo a ler, e ela voltou a tentar dormir.
Sua leitura durou por apenas cinco minutos, quando ele encostou a cabeça na poltrona, a boca aberta e soltou um ronco um pouco alto demais para a sanidade de .

- Senhor. Senhor!
Seu mundo se sacudia, mas não planejava se mover nem um pouco. Estava bom, como estava, e preferia ficar assim por mais um tempo.
- Mais cinco minutos… - Murmurou.
Ele ouviu uma risada baixa e diferente. A curiosidade falou mais alto que a preguiça e ele se dignou a abrir um olho, captando a aeromoça curvada sobre as duas poltronas que o separavam do corredor. Enquanto ele tomava ciência de onde estava e do que estava fazendo, a aeromoça se levantou e arriscou um sorriso complacente para ele.
- Nós já pousamos, senhor. - anunciou e se afastou.
se levantou em um pulo e constatou que o avião não só havia pousado, como todos dentro dele já saíram. Correu, então, para o corredor do avião e puxou sua mala do compartimento superior já aberto. Saiu em disparada para fora do avião, agradecendo à tripulação que estava próxima da porta, todos rindo do presente desespero que ele demonstrava.
Alcançou a área de desembarque e recuperou o fôlego, colocando sua mala finalmente no chão e esticando a coluna, com as mãos nas costas. Havia um grupo razoável de pessoas aguardando ao redor das esteiras e ele pôde ver, nos monitores, que o pessoal de seu vôo permanecia por ali. Logo identificou a figura esmirrada de , encarando a esteira como se sua vida dependesse disso.
Aproximou-se dela sem pressa, sabendo que deveriam pegar o mesmo táxi até o porto, onde o cruzeiro os esperava e não queria que ela ficasse irritada e ele ouvisse sua voz de gralha reclamando por toda viagem. Seguindo esse espírito de boa vontade, ao vê-la se curvar, prestes a voar para cima de uma bolsa com faixas vermelhas, cruzou na frente dela e a pegou, colocando aos seus pés.
O efeito foi o contrário do que ele esperava, cerrou os olhos em sua direção e pareceu que queria trucidá-lo. Ao menos, se seus olhos possuíssem raios lasers, ela o teria feito, mas como não desenvolvera (ainda) aquela habilidade, resolveu apenas checar se não tinha destruído sua mala nos poucos segundo que tivera contato com ela.
- Você está mais baixa - ele não pôde segurar sua língua ao reparar que não estava quase que exatamente de sua altura, mas uma cabeça mais baixa que ele.
- Isso se chama estar sem salto - respondeu, contrariada.
, rapidamente, olhou para os pés de e reparou nos tênis roxos que a mulher usava e, então comparou-os com seu chinelo de dedo surrado. Quem estava mais pronto para um cruzeiro e mais confortável? Ele, obviamente.
empurrou os pequenos fios que caíram em seu rosto quando ela checou sua mala, puxou o ferro dela para começar a guiá-la para os guichês de táxi e ver quanto dinheiro iria perder para ser levada até o porto, mas antes disso, estendeu a mão à frente do corpo, esperando receber seu amado livro de volta.
- Que? - perguntou, confuso.
trocou o peso de perna, meneando a cabeça, mas não guardou sua mão nenhum segundo, esperando o processamento levemente atrasado de a tudo que ela dizia.
- Meu livro - disse, pausadamente, para que ele entendesse com mais facilidade.
- Seu…?
A careta que ele fez logo informou à que algo estava muito errado, acelerando os batimentos cardíacos do seu coração. coçou a cabeça, sem jeito e olhou por sobre o ombro, tentando se lembrar o que havia feito com aquele pequeno pegado retangular de acumulado de papéis.
- Eu… Eu… Deixei ele no avião.
Havia dormido com ele no colo, provavelmente. Não sabia em que parte o havia perdido, se enquanto dormia ou quando levantara, mas certamente não estava mais com ele. E não parecia nem um pouco feliz com isso.
Ela acompanhou as mudanças das nuances de seu rosto com a garganta quase fechada. Estava esperando ter paz com ela, quem sabe conseguisse até reverter aquela situação esquisita entre os dois fora do ambiente majoritariamente de trabalho porque o futuro não era muito promissor; ele sabia que os frutos do último projeto tinham sido exageradamente bons e que eles iriam ser pedidos juntos nos próximo. Bom, a paz não seria feita naquele momento, estava quase colocando seus olhos para fora e seus lábios carnudos haviam se encolhido a apenas uma linha pequena e tremida que não demonstrava nada além da mais pura raiva.
- Você… - ela mal conseguia falar e ele reparou que tremia levemente. - Aquele livro era primeira edição. Autografado. Você não faz ideia! - Soltou um urro de raiva.
- Me… Me desculpe. Eu posso…
Ele não sabia o que podia fazer, então se cortou na frase. tinha certeza que ele não podia fazer nada, então apenas balançou a cabeça em negação e antes que fizesse um pequeno show no saguão do aeroporto e arrancasse toda a pele de com suas próprias unhas, virou-se de costas para ele e seguiu seu caminho para fora da área de desembarque, deixando o homem meio perdido no intermédio do saguão, com quase mais ninguém de seu vôo presente e se sentindo horrível.
Ele costumava irritar ao limite, principalmente com suas divergências de ideias em projetos e suas recusas ao que ela queria fazer com seus prédios, decorando-os da pior forma possível e estragando toda a sua obra. Porém, ali, ele não estava satisfeito. Na verdade, se colocava bem decepcionado consigo mesmo e, pelo comportamento de , sabia que aquele livro devia significar alguma coisa importante para ela; portanto, odiou perdê-lo.
Movido por aquele novo sentimento, tentou retornar para o avião, mas foi drasticamente barrado por um segurança.
- Eu esqueci uma coisa importante - implorou.
- Olha, moço, o avião já deve estar fechado, já - o segurança explicou, com calma. - Mas cê pode ir no balcão da empresa e descrever o que cê perdeu. Se eles acharem, eles enviam pra sua casa, sim.
agradeceu muito ao segurança e marchou para o balcão externo da empresa que viajara, onde uma mocinha muito simpática o atendeu e lhe deu um formulário para preencher, onde teve que se esforçar para lembrar o título e pesquisar o nome do autor pela internet péssima do seu celular. Entregou a ela e ela lhe informou que, se encontrado em tal aeronave, o livro seria encaminhado para a casa dele.
esperava que fosse mesmo.

Aquela lista infeliz não tinha fim. A loira mantinha seus óculos escuros sobre o cabelo, mal acreditando que tinha que passar o resto da manhã ali, recebendo os almofadinhas que estavam embarcando naquela viagem com ela. Respirou fundo. Eram os ossos do ofício.
Sua família era dona de uma grande agência turismo, com filiais em todo o país e centenas de pacotes para todo o mundo. Aquele, porém, era um dos pacotes, dos que eles ofereceram, mais requintados do ano, um de seus cruzeiros fora solicitado para um montante de metidinhos arquitetos, designers, engenheiros civis e todos esses ridículos construtores e decoradores de arranha-céus, destruindo a paisagem das cidades brasileiras.
Ela tinha reclamado um pouco de ser colocada para vigiar todos os âmbitos daquela viagem, mas como a filha caçula e a única que se formara em turismo propriamente dito, ela não tivera muita escolha. Seus pais já tinham certa idade, seu irmão mais velho cuidava das finanças da empresa, o segundo mais velho era o presidente e a irmã acima dela era diretora de marketing. E, para Maria Eduarda, sobrara viajar por aí, da maneira que ela bem entendia. Ela adorava, claro. Curtir o sol em um mês e, no seguinte, esquiar. Era maravilhoso, mas ela gostava de pegar excursões de adolescentes de quinze anos para a Disney ou de universitários para a Europa. Eram suas favoritas, de longe, e muito mais divertidas.
Agora ela estava presa com um monte de gente tediosa, em uma viagem de quase um mês para o Caribe, dentro da porcaria de um barco, de onde ela não conseguiria fugir nem se tentasse; não era lá uma nadadora muito boa em profundidades cruzadas por navios-cruzeiro.
Odiou seu irmão por tê-la convencido a fazer aquela viagem. Para o Caribe, ele disse. Você ama o Caribe. Vai ser divertido, ele disse. E estava começando terrivelmente mal.
Alejandro lhe dissera que haveria muita gente da idade dela e que ela poderia conhecer alguém interessante e ela considerara aquilo com cuidado. Poderia até acontecer, mas ela gostava da sua vida de solteira desimpedida. Mas ela poderia ser uma solteira desimpedida entre arquitetos também, por que não?
Se iludira. Quarentões e cinquentões estavam em uma leva bem grande por ali. Alguns até deixaram-na com nojo. Maria Eduarda sabia muito bem o que era: uma mulher bonita de vinte e três anos, no auge da sua formosidade e fogo. Não gastaria sua beleza jovem com carecas barrigudos de cinquenta; se fossem o Brad Pitt, pelo menos…
Na metade da manhã, ela estava convencida que se enfiara na maior furada de toda a sua vida. Porque além da maioria ser bem mais velha que ela, quase ninguém abaixo dos trinta, o cara que tinham contratado para gerenciar todas as atividades e eventos que ocorreriam para desentediar toda aquela gente chata (ou seja, completamente impossível) era um maluco incorrigível.
Passara toda a tarde do dia anterior perseguindo-na, fazendo perguntas totalmente chatas, como quantos quartos tinham no cruzeiro, quantas salas tediosas ele poderia usar e todas essas coisas técnicas que ela não sabia nada. Maria Eduarda era uma guia da diversão, não dos velhos chatos e viciados em trabalho.
O problema era: além de ser um maníaco obsessivo, Felipe era gato demais. Às vezes, ele ficava falando de todas as coisas chatas que ele teria que fazer e que ela possivelmente deveria ajudá-lo, Maria Eduarda só ficava encarando o corpo de Felipe, imaginando que loucuras eles não poderiam fazer se ele perdesse o controle só por cinco minutos. Tinha algo entre os dreads e a barba mal-feita do homem que deixava o meio de suas pernas em uma festa quase imparável.
E só tinha problemas para a pobre Maria Eduarda. Porque, de alguma forma, ela entendia que Felipe era quase inalcançável, toda aquela neura que ele tinha de fazer tudo da maneira mais perfeccionista possível e o seu maldito profissionalismo nunca que iriam permiti-la tirar proveito de sua parceria, enquanto estivessem lado a lado como responsáveis daquela viagem, seria assim que ele a veria. Nada mais.
Por isso, e por todas as coisas que o homem achava que ela deveria estar fazendo e ela não tinha nenhuma intenção de fazer, começou a tentar se manter o mais longe possível do homem, para acalmar seus hormônios em fúria. E, sedenta em fazer a ideia de Alejandro dar certo, pegou para si a tarefa de recepcionar os passageiros - não sabendo que eram todos horrorosos - dizendo para Felipe que ele deveria checar as acomodações e ver se nada faltava. Não era trabalho dela, porém, mas sabia que com os mais de 200 quartos do navio-cruzeiro, ele deveria demorar uma boa eternidade antes de voltar a atazaná-la com suas intermináveis tarefas.
Olhou a lista mais uma vez, ainda faltavam mais de cinquenta pessoas para se apresentarem ao navio. Aquela era uma viagem sem margem para faltas: as empresas haviam pago caro para agraciar seus funcionários e ela sabia que estavam sendo rígidos sobre todos realmente estarem ali. A maioria chegara ainda pela manhã, faltava bem menos da metade ainda antes do almoço, e a partida estava marcada para as três da tarde. Nada poderia ser mais tedioso do que mais gente certinha como o Felipe dentro daquele navio. Gente certinha como Felipe tirando férias.
Estava quase se convencendo que aquela viagem seria o maior fiasco da sua vida quando um grupo de jovens, aparentando serem mais jovens do que a maioria que passara por ela, começou a subir a rampa de embarque do A Donzela Indomável, indo em sua direção. Ela rapidamente arrumou a postura e os aguardou, brincalhões e sorridentes, chegarem até onde ela os aguardava.
- Bom dia! Bem vindos a bordo do Donzela Indomável, esperamos que tenham uma boa estadia. Por favor, tenham em mãos o documento de identificação para que possamos autorizar sua entrada entregá-los o kit bordo, com a chave dos seus aposentos e algumas instruções de segurança. Obrigada - ela agradeceu a um dos rapazes, que se aproximou, já com a identidade em mãos.
Eram três homens e duas garotas, todos aparentando entre 20 e 35 anos, o que era certamente um colírio para os olhos de Maria Eduarda. Atendeu uma das moças e dois rapazes, que aguardaram os dois companheiros remanescentes logo atrás dela, com suas respectivas sacolas de boas vindas.
Os dois que ficaram para trás, eram ligeiramente menos preparados e aparentavam ser um casal. Ao menos a mulher parecia querer aparentar que eram, o homem, muito lindo por sinal, não parecia lá muito contente com a atenção e o carinho exagerado dela. A moça achou sua identidade de dentro da bolsa com um grito de triunfo. Se aproximou, então, e eu conferi seu nome na lista. Carolina devia ser a mais nova que passara ali, da mesma idade que Maria Eduarda, que sorriu simpática para a garota, querendo que ela tivesse uma boa impressão sua caso o tédio a vencesse e ela precisasse de uma amiga. Procuraria-a, com certeza. A garota agradeceu, simpática, e foi se juntar aos amigos, sem pressa.
- Oi, linda. - O rapaz jogou charme para cima de Maria Eduarda assim que Carolina se afastou. Ele empurrou um documento que deveria ter sido lavado, pelo menos, umas cinco vezes, de tão acabado que estava. - Minha identidade está um pouco apagada, mas eu sou Antônio Pereira, da Under Constrution de São Paulo. E você é?
Maria Eduarda sorriu à intenção clara de Antônio de tentar envolvê-la, o que a fez duvidar que tivesse alguma coisa com Carolina, na realidade. Ela analisou bem o homem, tinha um charme exagerado em sua barba displicente, como se ele tivesse esquecido de fazê-la pelos últimos dias, e algo completamente hipnótico entre seus olhos e suas sobrancelhas, que com certeza deixaria Maria Eduarda encará-lo por horas, mas preferiu respirar fundo e checar a lista, encontrando seu nome com facilidade. A lista de nomes da Under Constrution estava quase toda preenchida, com a exceção de um casal da filial de Belo Horizonte que ainda não havia aparecido. Pegou sua bolsa de boas-vindas e entregou ao homem.
- Maria Eduarda - respondeu por fim. - Guia.
Ele sorriu de um jeito malicioso que quase fez Madu perder os sentidos e jogar-se em seu pescoço, completamente apaixonada. Jesus, o homem era quente feito o inferno e ela mal podia esperar para se enfiar em seus lençóis, o que provavelmente aconteceria, cedo ou tarde. Cedo, ela esperava.
- Hm… Guia. Que me guie em ótimas aventuras, então - brincou.
Maria Eduarda sorriu, levemente envergonhada. Não estava envergonhada de todo, mas pareceu que sim, seu rosto ganhando cor com facilidade, vítima da pele extremamente branca que possuía, de família, descendente de alemãs.
- Caham - uma mulher bastante inconveniente, reclamou atrás de Antônio. - Com licença, tem gente esperando para ser atendido aqui.
Ela era a única e isso fez Maria Eduarda cerrar os olhos em sua direção. E gostou ainda menos da mulher, que também parecia bem jovem, quando Antônio virou o rosto para olhá-la e analisou-a de cima a baixo, parecendo bem contente.
A diaba era bonita, ela tinha que admitir. Os olhos eram de um tom verde, levemente amarelado, delineados por linhas negras perfeitas. O cabelo curto estava penteado em um leve topete, ressaltando a linearidade de seu rosto e a boca carnuda com batom vermelho. A pele da mulher era morena, meio dourada, deixando Maria Eduarda automaticamente com inveja.
- À sua vontade - Antônio respondeu, se afastando e indo para a companhia de seus amigos.
A mulher encarou-o com um olhar nem um pouco amigável e, então, voltou toda a sua fúria para a pobre Maria Eduarda, que estava só fazendo o seu trabalho, enquanto aproveitava para paqueirar um pouco. Ninguém era de ferro, certo?
- , Under Constrution, Belo Horizonte - disse, empurrando sua carteira de motorista nas mãos da loira, que revirava os olhos. Claro que a mulher tinha que ter um nome afrodisíaco como aquele, combinava inteiramente. - Fica em Minas Gerais, caso você não saiba. - Completou, vendo que Maria Eduarda não fizera menção a procurá-la na lista.
A loira cerrou os olhos na direção da morena e, teatralmente, virou a folha da lista com tanta força que rasgou-lhe pela metade. Urrou de raiva e sabendo exatamente onde estava o nome de , riscou-o sem nem olhar.
- Seu parceiro não veio com você? - perguntou.
- Você está vendo ele aqui, por acaso? - respondeu.
Maria Eduarda empurrou a bolsa de boas-vindas nas mãos da mulher com o máximo de gentileza que sua educação lhe permitia (isso significava que ela jogou a bolsa de qualquer jeito para uma ainda mais irritada e contrariada).
passou como um trovão pela loira, mas interrompeu-se e voltou.
- Aliás, se você o vir, jogue ele lá em baixo por mim, sim? - disse. - Ele merece.
Enquanto a mulher de cabelos curtos se afastava, Maria Eduarda pensou que, seja lá o que esse rapaz (checou seu nome na lista para gravá-lo) tinha feito para merecer o desafeto dela, ela deveria lhe dar um beijo. Era certamente o que ele merecia.
Estava imaginando como um deus grego, com direito a uma toga extremamente sensual que lhe deixava com o abdomem totalmente definido exposto para a apreciação de Maria Eduarda, quando os dreads de Felipe surgiram em sua frente e ela arregalou os olhos, pulando para trás em total susto.
- O que você está fazendo? Todos já chegaram? Você entregou todos os kits? Falta fazer alguma coisa? - Maria Eduarda quase fez o que desejara para : pulou do alto da rampa para o mar, a única saída que encontraria para fugir dos inesgotáveis questionamentos de Felipe.
- Está tudo em ordens.
Ele estendeu a mão para pegar a prancheta de Maria Eduarda, mas ela resolveu que queria conhecer o tal do rapaz , então abraçou-a apertada em seu peito, estreitando os olhos para Felipe.
- Dá pra você me deixar fazer meu trabalho em paz e ir cuidar do seu? - reclamou.
Ele, rendido, estendeu as mãos no ar em derrota e se afastou.

- Ah! - soltou, contente, ao girar a chave na porta que tinha o número 52 pintado em letras fabulosamente desenhadas.
Aquela viagem estava saindo melhor que encomenda. Apesar do começo tumultuado por conta de , adorara tudo no navio até então. Era bem chique, bem requintado e tudo parecia deliciosamente decorado a ser combinado em cada detalhes. E o seu quarto era bem agradável. Tinha um armário de madeira que era uma relíquia inigualável. Ela se aproximou, admirando-o e acariciando-o com ternura. Quis usá-lo imediatamente, então começou a desfazer a mala e a guardar sua roupa nos compartimentos com todo carinho e cuidado.
Ao terminar, resolveu que deveria vestir algo um pouco mais leve e que combinasse mais com o ambiente do cruzeiro, embora o vento frio marítimo estivesse batendo e tomando para si o medo de roupas mais ousadas. Trocou a calça jeans por uma bermuda e os tênis com uma sandália de dedo e se sentiu mais incluída no ambiente.
Sentou e arriscou uma olhada pela pequena janela arredondada, de onde podia ver o céu azulado, meio cinzento e o sol amarelo brilhando sem dó. O sul, ela sabia, costumava ser devidamente mais frio, mas tivera sorte e o dia estava para lá de agradável.
As companhias também; passara o olho por algumas pessoas e muitas lhe cumprimentaram agradavelmente e ela pôde conhecer rostos de eventos e revistas e se sentiu muito sortuda em fazer parte da nata da sociedade das construções, sendo reconhecida pela sua inteligência e o seu trabalho duro.
Mal sabia ela que ela e seu parceiro povoavam o imaginário de boa parte daqueles presentes, que os invejavam pelos seus dois projetos perfeitos. Eram, atualmente, a realeza das construções, os melhores dos melhores, e mesmo jovens, não faltava nada para que começassem a receber contratos milionários pelos seus trabalhos tão inspiradores.
era mais pé no chão e um pouco pessimista, na maioria das vezes. Embora seu trabalho necessitasse de uma pá cheia de sensibilidade para a combinação perfeita entre todos os ambientes e a desenvoltura de passar uma mensagem que mostrasse a cara dela, do projeto, do prédio e apesar, ainda, de acreditar em si mesma e saber que fazia seu trabalho bem, ela pouco conseguia enxergar os frutos do seu trabalho com a mesma frieza que encarava as paredes vazias de um novo trabalho, cheias de possibilidades e cores. Via-a apenas como alguém que fazia um trabalho decente, enquanto todos presentes ali achavam-na simplesmente a melhor coisa que acontecera ao mercado. Ou a pior. A concorrência mais genial que si mesmo era um problema.
Mas ali, naquela confraternização, os projetos tinham ficado de lado e todos apenas queriam ser simpáticos e quem sabe conseguir uma dica ou duas com o casal que estava decolando com suas ideias completamente mirabolantes e inovadoras.
Contente e convencida de que não seria nem um pouco dificil arrumar companhias agradáveis para aquele mês dentro do navio (que ela esperava não enjoar), levantou-se da cama onde estava sentada em um só pulo e marchou para fora de seus aposentos, a fim de procurar alguém com quem pudesse conversar.
Achou que a ideia não tinha sido lá muito boa, ou a hora não muito apropriada, assim que trancou a porta de seu quarto e se virou para seguir seu caminho para a área externa, dando de cara com , carregando sua mala não muito grande em seus ombros e com um pouco de dificuldade.
Ela guardou a chave com pressa no bolso do seu shorts e estava planejando fugir rapidamente sem nem olhar para , fingindo que não o vira, mas o rapaz estava com a boca ligeiramente aberta e ao vê-la tentar passar pelo espaço ao seu lado, deslizou, ficando de frente para ela impedindo-a de passar. Ela levantou a cabeça, encarando-o com raiva e deu um passo para o lado que ele deixara mais livre e escorregou para frente dela mais uma vez.
- Dá licença? - rosnou.
- Eu conversei com… - ele tentou começar, mas o empurrou de uma forma mais bruta a que ele poderia se preparar, fazendo sua mala cair e ele se curvar sobre ela por causa do peso.
então passou por cima do bolo confuso que era gustavo e sua sandália ficou presa na alça da mala do mesmo, fazendo-a dar um passo em falso com o pé descalço. se dignou a rir e pegou a sandália da mulher em suas mãos, antes dela arrancá-la dele em absurda fúria, calçar e ir para longe antes que ele conseguisse formular a palavra “espera!”.
Ela marchou, ainda com a expressão emburrada, até a área externa, onde teve que apertar seus olhos claros para se acostumar com a claridade. Parou na porta que levava ao lugar e analisou os grupos de conversa que estavam se formando por ali, analisando qual seria o de seu maior agrado. Acabou optando por um grupo de pessoas jovens a apenas alguns passos dela, que ela reconheceu como as pessoas que estavam na sua frente na rampa de entrada.
Se aproximou, destemida, e parou entre uma moça de cabelos cacheados cheios e o rapaz que a analisara como um gavião querendo caçar, sorrindo amigavelmente. A conversa parou e todos olharam para ela, querendo saber o que estava fazendo ali.
- Olá. Sou , da Under Constrution de BH. - anunciou-se, percebendo que as expressões hostis se suavizaram ao ouvi-la dizer seu nome e todos arriscaram sorrisos tímidos em sua direção.
O rapaz que estava quase devorando seu decote inexistente, tal como o fizera na rampa do barco, se adiantou e estendeu a mão para ela.
- Antônio, da Under Constrution de Sampa. E esses são Verônica e Tiago, de lá também.
Verônica acenou, um pouco sem jeito, e Tiago também apertou a mão de . Ela sorriu para os dois e depois se virou para os dois que faltavam, recebendo uma olhada nada amigável da moça de cabelos cacheados.
- Marcelo e essa é a minha parcerinha Carolina - ele passou o braço pelos ombros de Carolina, que revirou os olhos, sem conter o sorriso. - Somos da Vyga, de São Paulo, também.
- Muito legal - soou simpática, apesar do olhar atravessado de Carolina. Virou-se, então, para seus companheiros de empresa - Eu pedi transferência pra filial de São Paulo há alguns meses, mas meu chefe se recusa a abrir mão de mim.
Todos, exceto Carolina, deram uma risada da frase dela, uns mais tímidos, outros mais desbocados.
Não se precisava dizer que Antônio estava entre os desbocados.
- Se eu fosse seu chefe, eu também não… - ele fez uma pausa estratégica, olhando-a de cima a baixo outra vez. - abriria - disse a palavra como se fosse algo erótico e quis se esconder embaixo de qualquer coisa só para sair de perto daquele cara. - Mão de você também. Mas é uma pena. Seria ótimo trabalhar - e, novamente, aquele tom nojento de volta - com você.
Ela tentou contato visual com Verônica e obteve a resposta que queria com um balançar de ombros dela: o cara era invasivo assim o tempo todo. Começou a pensar em como iria sair dali sem ser mal-educada e cortar os vínculos com o pessoal do escritório de São Paulo (que era sempre bom ter como uma carta na manga).
- Eu tô com fome - Carolina anunciou, terminando o silêncio ligeiramente constrangedor que se instalou depois da fala ridícula de Antônio. - Vamos comer, mô?
Ela atravessou pela frente de e passou os braços pelos ombros de Antônio, fazendo arregalar os olhos e dar dois passos para o lado, dando espaço para os dois. Antônio chegou o rosto para trás, afastando-se dos lábios de Carolina e desejou que a moça tivesse um tiquinho de amor próprio para não fazer aquele papelão com um cara tão ridículo.
- Eu não tô com fome. Pode ir.
Carolina soltou-o de seu abraço, um pouco forçada com a pressão que Antônio fazia em sua barriga e pareceu completamente desolada.
- Eu vou - Verônica anunciou rapidamente, provavelmente tendo o mesmo sentimento que , analisando aquela situação vexaminosa.
, então, viu-se sozinha com três homens, sendo que um era um tarado mal-educado. Começou a rodar os olhos para todas as pessoas em seu redor, vendo Antônio já querendo se engraçar para o seu lado.
Com um suspiro quase aliviado, reconheceu as costas de um pouco distante dali, admirando o mar abaixo deles. Não era exatamente o que ela tinha em mente para sua salvação, mas a desculpa colaria com facilidade.
- Preciso ir - anunciou, enquanto Antônio pareceu nem um pouco feliz e os outros rapazes sorriram, simpáticos. - Meu parceiro… Enfim. Foi um pazer.
Ela se afastou, indo em direção a , mas não sem antes conseguir ouvir a frase completamente asquerosa de Antônio:
- O prazer foi todo meu.

- Você não vai acreditar!
se sobressaltou ao ouvir a voz de aumentar enquanto ela chegava perto dele. Cerrou seus olhos, deixando apenas um pequeno pedaço da íris castanho esverdeada à mostra, mas que não chegou nem perto de intimidar a mulher.
- Eu estava lá e eu mesma não acredito - continuou.
Parou do lado dele e copiou sua posição, mas sem se curvar tanto quanto ele, apoiou os braços na grade do barco e cruzou os pés, balançando a cabeça de forma que a mecha de cabelo que estava caindo em seu rosto voltasse para o seu lugar no topete.
- Você tá louca? - perguntou.
- Não enche e finge que tá rindo!
Ela deu um tapinha meio amigável, meio provocativo no braço dele e ele encenou uma péssima risada falsa, mas que foi o suficiente para não implicar mais com sua falta de participação no plano de se livrar do cara maluco com quem conversara.
- Completamente louca - decidiu.
- Não. - resmungou. - Loucos são essa galera de São Paulo. Você não faz ideia. Não chega perto deles.
olhou para onde estava apontando disfarçadamente com a cabeça e levou um tapa em seu braço.
- Disfarça!
- Eles parecem normais - decidiu.
- Mas não são.
- Vai ver você que é doida.
- Desisto! - desapoiou da grade e começou a se afastar.
pegou-a pelo braço rapidamente, puxando-a de volta para o lugar. teria reclamado em qualquer outra ocasião, mas estava temerosa de Antônio acabar cruzando pelo seu caminho caso estivesse sozinha. E ela, definitivamente, não queria ficar sozinha com ele por nem um segundo.
- Espera. Você vai me ouvir agora? - perguntou.
revirou os olhos, mas voltou sem lutas para o lugar original, desta vez concentrando sua atenção nas leves ondas que quebravam no barco. Ainda faltava pouco mais de uma hora para ele zarpar, mas ela mal podia esperar. Não sabia bem o porquê, mas se via ansiosa para sair do porto e pegar o alto mar.
- Tá. - respondeu, a contragosto, distraída, tentando identificar alguma espécie marinha nas águas escuras próximas ao porto.
- Eu falei com umas pessoas no aeroporto. Preenchi um formulário, eles vão mandar o livro pra minha casa. - resumiu e foi totalmente esperançoso com o resultado da empreitada da manhã - Quando chegar, eu te entrego.
Na verdade, tinha em mente comprar o mesmo livro de primeira edição e conseguir um autografo, caso aquilo não desse certo. Era mais fácil do que fazer esquecer e parar de buzinar o acontecimento em seu ouvido pela próxima década. Ao contrário dela, ele tinha consciência de que trabalhariam juntos por um bom tempo, ainda, visto o sucesso exagerado do último empreendimento.
- Tudo bem, eu entendo.
Foi só isso que ela disse. tivera um trabalho infernal (ok, não fora tanto assim) para conseguir o tal do formulário e preencher tudo para recuperar aquele livro que parecia significar tanto para e tudo que ela dizia era “Tudo bem, eu entendo”? Aliás, que diabos ela entendia?
- Entende o quê? - não pôde segurar a pergunta.
respirou fundo e virou o rosto para , esperando ver sua expressão quando ela dissesse as palavras:
- Entendo que você não dá valor pra coisa alguma. Pessoas como você, que sempre tiveram tudo de mão beijada, não costumam se importar com nada. Porque sempre podem conseguir outro, é fácil, não é? Estalar os dedos e pronto. Nenhum esforço, nenhum suor… Só notas infinitas na carteira e todas as oportunidades abertas.
Desabafou tudo em um segundo. Não que ela já não tivesse dito as palavras antes, mas foram aos poucos, mais implicância do que aquela conversa mais séria. havia perdido um dos seus bens mais preciosos. O livro de decoração havia sido presente de seu avô quando ela passou na faculdade, era a primeira edição e sabia que devia ter lhe custado os olhos da cara. Seus amigos de faculdade cobiçavam demais o seu pequeno livro e, alguns meses antes de seu avô falecer de câncer de próstata, ele a incentivara a ir em uma viagem e conseguir o tal do autógrafo. Vibrou com ela, como se tivesse sido com ele. A primeira da família a ter ensino superior, fruto de duas gerações de trabalho, que brigavam para que ela pudesse trilhar os caminhos que eles não conseguiram.
Ela não deixava de reparar o quão mais fácil era tudo aquilo para . Seus salários não divergiam tanto e, enquanto ela tinha que se virar para pagar todas as suas contas e recuperar as moedas perdidas dentro da bolsa para encher o tanque do seu carro no fim do mês, pagava almoços para toda a equipe, conquistando todos tão facilmente com presentes e galanteios.
Ele a encarou chocado após aquelas sentenças. Ofendido, também. Ele sabia que os pais de tinham suas dificuldades financeiras e que a infância dos dois fora muito diferente, mas não esperava aquele julgamento dela. Por sua mãe e avó, ele não estaria trabalhando, mas lá estava ele, buscando criar prestígio para o próprio nome, batalhando em prol da sua carreira e da sua independência…
Ela deveria entender.
- Você não faz ideia…
A responsabilidade de ser um era estarrecedora para . Ele tinha responsabilidade e não havia meio-termo, ou ele fazia sucesso… Ou fazia sucesso. E tinha batalhado muito em sua vida para chegar no patamar que estava agora, com pouco mais de trinta anos.
Sem a sua avó. Conseguiu seu emprego por ele mesmo e montou toda sua trajetória sozinho.
- É, realmente. - concordou, voltando a olhar o mar.
estava perdido em pensamentos chateados com a ideia que fazia dele, mas sem encontrar nenhum argumento que a fizesse mudar de ideia. Resolveu deixar para lá, era mesmo teimosa feito uma porta e nunca daria ouvidos às suas palavras explicativas. Apenas bufou, frustrado, curvando-se ainda mais sobre a grade do barco, encostando o queixo em suas mãos.
- Era pra essa viagem ser divertida - murmurou. - e até agora, só tem sido um saco.
bufou ao seu lado e ele pôde identificar que era de pura concordância.
- Divertida? Com você e esses loucos? - ele podia sentir a ironia dançando entre suas palavras e não conseguiu evitar o sorriso. - Vai sim.




Continua...


N/a: Eu sinceramente espero que quem já tenha lido os capítulos não reescritos não queira me matar agora. Do fundo do meu coração. hahahaha
Eu não estava lá muito satisfeita de como Deserto estava indo antes e fiquei um pouco depressiva durante minhas férias, porque eu não sabia exatamente o que fazer com ela. Foi quando eu me deparei com a possibilidade de consertar e me dedicar mais antes que fosse tarde. Afinal, eram só dois capítulos. Dava.
Ela estava muito... Crua. Então eu resolvi começar ela do zero e resolver esses probleminhas. Espero do fundo do meu coração que tenham gostado <3
Vocês podem entrar em contato comigo nos links disponíveis e também pelos comentários <3 Eu respondo todos, ok?
Beijos rosados :*
Letícia Black








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