O preço dos livros
Postado em 18 de agosto | Por Letícia Black Comentários

Por duas vezes, nessa andança de procura por uma editora para Jogando os Dados, desisti de uma proposta porque o valor final do livro sairia mais que R$40,oo. Claro, com esse valor, eu ganharia mais (cerca de 4 ou 5 reais por livro), mas, na verdade, não tenho coragem de cobrar R$45 em um livro. Não mesmo.

Eu me lembro de dois momentos muito específicos da minha vida. O primeiro foi em 2003. Em 2003, eu tinha 13 anos, era viciada em Harry Potter e tinha acabado de sair a Ordem da Fênix por um preço absurdo de mais de 70 reais. Lembro da minha animação ao saber do lançamento do livro e do sentimento de impotência quando me deparei com o valor. Lembro de ter dito pros meus pais “tudo bem, não precisa comprar”, não porque eu não queria ou porque não valia a pena ou porque eles não queriam comprar, mas porque era demais para o nosso orçamento. Felizmente, alguns meses mais tarde, minha avó me deu o livro de presente de natal (minha avó nunca se doeu em me dar livros de R$70, pelo contrário, aconteceu mais de uma vez e nas duas eu fiquei bem horrorizada e repeti mil vezes que não precisava).

A segunda vez foi em 2005. Veja bem, dentre 2003 e 2005, eu passei por uma das piores fases da minha vida. Na verdade, isso durou um pouco além, até 2007/2008. No final de 2003, meu pai ganhou um dinheiro bem legal de um processo trabalhista e resolveu investir em uma loja de espetinhos em Muriqui/Mangaratiba. Nós tínhamos uma casa alugada a 50 metros da praia que era meia fortuna por mês, mas se eu fui à praia três vezes naquele verão foi é muito – recordo-me de em uma dessas vezes ter fugido com minha prima e o namorado (hoje marido) e a gente ir pra uma praia mais escondida depois da linha do trem pra curtir a manhã. Então, nesse verão, com 13/14 anos, eu trabalhei de verdade como uma condenada. Eu, minhas primas e primos, agregados, tios, padrinhos e tudo mais. Foi um pequeno inferno, mas parecia valer a pena, parecia estar dando dinheiro…

Exceto que quando nós retornamos pra nossa favela, não tínhamos arroz pra comer nem shampoo para lavar o cabelo. Lembro que meu pai ganhou uns 200 mil no processo e cada dia com a loja de espetinho dava em torno de 1mil, e nos feriados chegava a 4mil por dia. E a gente não tinha dinheiro pra comprar shampoo.

A minha visão dessa época é bem infantil, se vocês querem saber. Eu não estava muito ligada e eu sempre fui muito de boa com essa questão de dinheiro. Se meus pais me falavam “não dá pra comprar” eu nem encrencava, estava sempre tudo muito bom de qualquer jeito. Acho que isso acontece quando a gente tem que lidar com certas limitações financeiras, meu irmão é bem tranquilo assim também. Mas eu me lembro que faltava tudo em casa, me lembro muito da minha mãe deprimida e não lembro quase nada do meu pai dessa época, porque foi nesse ano que eles se separavam.

Enquanto minha casa estava em frangalhos, minha mãe falava para eu comer na casa da minha avó. Acho que nessa época eu quase morava com ela, na minha cabeça, eu dormia com a minha avó pra vigiar e cuidar dela – meu avô já tinha falecido há um ano ou dois -, mas hoje acho que me enganaram de forma positiva. Acho que minha mãe passou fome em casa, mas eu e meu irmão não. Coisas que mães fazem.

Bem no final de 2004, eu operei o apêndice. Mas o negócio foi um pouco mais complicado. Meus pais tinham feito plano de saúde para meu irmão e eu naquele ano ou no ano anterior, mas quando eu cheguei para emergência, o plano de saúde não estava pago há seis meses, assim como a minha escola, que ligou para falar que eu não receberia o diploma por causa do atraso (não foi assim rude como parece, eles ligaram para minha avó para perguntar se ela estava ciente do atraso porque eu tinha estudado a vida toda nessa escola e eles conheciam a gente bem), tal como a escola do meu irmão.

Eu acredito que toda a poupança da minha avó foi gasta nesse momento, porque eu operei no particular e recebi meu diploma certinho.

Ela não é um anjo na minha vida? Céus, eu tô até chorando agora.

No começo de 2005, eu estava para completar meus magníficos 15 anos. Como toda adolescente brega, eu queria viajar para a Disney, minha avó tinha ido uns anos atrás e me falava tantas maravilhas, eu estava ansiosa para ir! Exceto que o dinheiro que minha mãe tinha guardado para minha viagem desapareceu da conta poupança conjunta que ela tinha com meu pai. Ops. Sumiu com toda a fortuna anterior, até hoje ninguém sabe onde foi parar. De acordo com ela, tinha dinheiro para a viagem e para uma festa não muito pomposa e que eu teria as duas coisas, mas não deu. Eu, que sempre fui muito boazinha, disse que tudo bem e minha família me preparou um churrasco (se eu não me engano, no dia do churrasco teve um tiroteio e nenhum amigo meu apareceu rs mas minha familia estava lá, então tudo bem).

Minha mãe tinha uma lan house, foi o que sobrou pra ela na separação. E, mesmo assim, meu pai fez questão de levar metade dos computadores (que minha avó que tinha comprado rs) que faziam o sustento dos filhos dele. E eu queria deixar bem claro que se ele pagou dois meses de pensão (um salário minimo) foi muito. E eu ainda tive que ouvir que ele dava dinheiro para comprar arroz e feijão, se fosse para queijo e presunto, ele não dava não (????????????).

Esse era meu panorama financeiro quando O Enigma do príncipe saiu, com o seu preço na casa dos R$60. Eu queria MUITO o livro e, pela primeira vez, aos 15 anos, descobri a pirataria. Li online em tradução não oficial pela primeira vez, porque eu não tinha dinheiro para comprar o livro e queria muito estar por dentro dos papos dos meus amigos, cheios de spoiler (e também porque eu estava convencidíssima que Sirius iria voltar. Pois é. hahahahahaha). Alguns meses mais tarde, eu consegui comprar o livro, não me recordo de que forma, mas provavelmente foi obra da minha avó outra vez.

Essas duas situações, esses dois livros que eu queria muito e estavam acima da minha condição financeira, me colocam com o pé no chão quando quero lançar meu livro. Não quero que ninguém sinta a sensação de impotência quando se deparar com um livro meu, tal como eu senti perante esses dois livros que eu queria muito. Quero que seja faço, que seja acessível, e por mais que livro seja caro nesse país, eu quero que eles tenham um valor menos encorpado para auxiliar quem quiser comprar o máximo possível.

Na terra em que coca-cola está 7 reais, acho que 39,90 é o máximo de um preço não muito salgado de um livro e eu estou tentando que nenhum meu passe essa marca. Mas, é, pode demorar ^^

Beijos rosados :*


Sobre o Autor

Letícia Black tem 25 anos e é natural do Rio de Janeiro. Viciada em livros e séries, escreve histórias desde cedo e se diverte muito com elas. Sonserina, Judd, Lannister, tributa, erudita, gleek ou simplesmente Leka. Autora orgulhosa dos livros Contos de Uma Fada e Garota de Domingo.



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