Sinopse

O segundo livro da série, “O Preço de Ser Uma Popstar,” mergulha ainda mais profundamente na vida de Tish Foster, uma popstar que finalmente alcançou o sucesso que tanto desejava. No entanto, a fama tem seu preço, e Tish está prestes a descobrir que o mundo dos holofotes não é tão glamouroso quanto parece.
Enquanto sua carreira está no auge, Tish também se encontra no centro de uma tempestade de fofocas e escândalos. A pressão da fama começa a cobrar seu preço emocional, e Tish precisa enfrentar todos os desafios de sua vida adulta e profissional. Ela está determinada a manter a felicidade conquistada e a proteger os relacionamentos preciosos que reconstruiu.
No entanto, à medida que a pressão aumenta, segredos do passado e novos obstáculos surgem, ameaçando seu relacionamento com o amor de sua juventude e desestabilizando as relações com seus amigos e familiares. Tish precisa encontrar forças para enfrentar o escrutínio implacável da mídia e lidar com as consequências de suas escolhas.
“O Preço de Ser Uma Popstar” é uma história emocionante que mergulha nos altos e baixos da fama, nos desafios de manter relacionamentos e na luta de uma jovem mulher para equilibrar sua carreira e sua vida pessoal. Com gatilhos emocionais complexos, a narrativa explora a resiliência de Tish enquanto ela navega pelas águas turbulentas da indústria da música e tenta preservar o amor e a felicidade que conquistou com tanto esforço.
Esta é uma continuação envolvente da série que captura o leitor com seus personagens cativantes, dilemas emocionais e uma jornada fascinante pelo mundo da fama
Gênero: Drama Romântico
Classificação: 18 anos.
Gatilhos: sangue, aborto, suicídio, alcoolismo, revenge porn / pornô de vingança, automutilação

Personagens

Tish Foster (Leticia Leah Alvares White)

Astrologia:
☼ Peixes
☾ Aquário
↑ Câncer
MBTI: ENFJ (protagonista)
Ocupação: Popstar
Aniversário: 22/02
Idade: 24/30 anos

Chris Willians (Christopher Adam Willians)

Astrologia:
☼ Capricórnio
☾ Aquário
↑ Libra
MBTI: ENFP (ativista)
Ocupação: Rockstar e Jurado
Aniversário: 23/12
Idade: 26/32 anos

Informações extras

Andamento da escrita:

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Planejamento de postagem:
2 capítulos por semana

Últimas atualizações:

Capítulos 7 e 8: 17/12
Capítulos 5 e 6: 03/12
Capítulos 3 e 4: 24/09
Capítulos 1 e 2: 31/08

Previsão de término:
23/12/24

Atenção:
Esse texto é o meu rascunho, então terá erros e confusões. A caixinha de comentários está aberta para sugestões e críticas (apenas sejam gentis) para que vocês possam me auxiliar nesse processo.
Até que ele esteja pronto para publicação, muita coisa vai acontecer e muita coisa pode mudar no texto, no nome ou na capa.
Fiquem à vontade para sugerir músicas para os temas dos capítulos!!! Nem sempre eu acho as certas e a ajuda de vocês seria importantíssima!

Capítulo 1

A Queda

Extra, extra! Não fique de fora dessa
Garanta seu ingresso pra me ver fazendo merda
Extra, extra! Logo logo o show começa
Melhor do que a subida só mesmo assistir a queda

Foi bem na semana que meu sobrinho, Andy, nasceu. Nós terminamos a turnê há pouco mais de uma semana e Chris e eu ainda estávamos naquele período mágico em que ninguém quer sequer arriscar cometer erros ou desagradar o outro, onde tudo era perfeito. Ele praticamente se mudou para a minha casa, marcou jogar golfe com David às quintas e um encontro duplo também estava agendado.

Para falar de pequenas vitórias, nós conseguimos parar de fazer sexo o tempo todo e, apesar dos olhares travessos e apaixonados que trocávamos o tempo todo, a vida era mais que isso.

Embora fosse importante.

Muito importante.

E que eu estava descobrindo que Chris era ainda mais safado do que eu pensava.

Mas, apesar disso tudo, acabamos desenvolvendo um gosto por assistir programas de investigação juntos e éramos isso que estávamos fazendo naquela manhã de domingo quente e abafada.

Enquanto a TV narrava um caso não solucionado famoso, Christopher mantinha os braços ao redor dos meus ombros e eu pintava minhas unhas dos pés. Consegui convencê-lo a pintar o mindinho de preto depois de uma batalha de cócegas e gargalhadas.

Seu telefone tocou e eu pausei a programação enquanto ele atendia. Acenou e mexeu os lábios para me informar que era sua mãe, então se levantou e começou a andar pela casa; ele tinha essa mania ao falar ao telefone, principalmente quando fosse sua família ou um dos meninos da DeLorean. Com sua mãe, porém, costumava se afastar o suficiente para ficar longe dos meus ouvidos; eu sabia que ela não gostava de mim e ele estava com dificuldades em selar um acordo de paz entre nós duas.

— Pode continuar assistindo — ele me informou. Então, como esperado, levantou-se e saiu andando pela casa, em direção ao jardim.

Eu não continuei assistindo. Esperei seis anos para garimpar minha chegada até aquele lugar e poderia aguardar uma ligação, então, ao invés, enrosquei o esmalte e peguei meu celular, que estava virado para baixo na mesa de centro.

Foi como se o mundo inteiro tivesse explodido na minha cara.

Quando Chris voltou, eu estava encolhida no sofá, os joelhos encostados em meu queixo, as mãos sobre as orelhas, me balançando e chorando, enquanto murmurava palavras inteligíveis em qualquer língua, embora se assemelhassem mais ao português.

— Tish? — Chamou-me, estranhando. — Tish! — quase gritou quando percebeu o que estava acontecendo. Pulou por cima do encosto do sofá para o meu lado e me puxou para seu colo no segundo seguinte, me apertando em seus braços fortes. — Calma, meu amor. O que aconteceu?

Eu não conseguia falar. Não conseguia responder nada útil. Era a primeira crise séria que tinha em anos e eu nem me lembrava mais do que precisava fazer. Christopher tentou me acalmar acariciando meus cabelos, dizendo coisas agradáveis, mas não deu certo Depois de algum tempo, ele achou que era melhor fazer uma ligação para minha irmã, já que Michael estava enrolado com um recém-nascido que adorava ficar a madrugada toda acordado.

— Não sei o que houve, saí por cinco minutos e, quando voltei, ela estava assim.

“Eu sei” a ouvi responder. “Já estou a caminho”.

Se eu estivesse bem, reclamaria que ela não devia dirigir e falar ao telefone ao mesmo tempo, mas estava grata que fosse tão rápida em avaliar os danos.

Não demorou cinco minutos e irrompeu pela porta de casa após Chris gritar que estava aberta. Então, fui gentilmente passada para seus braços, vendo Christopher coçar a cabeça, tentando compreender a confusão.

— Aqui — Piper ofereceu seu celular para ele. Apareceu a tiracolo, já que ela e Hope ainda moravam juntas. — Saiu uma matéria dessa ontem à noite, mas hoje as pessoas começaram a compartilhar e criar versões e teorias e, bom… Não parece nada legal.

Meus cabelos estavam sendo amassados pela minha irmã quando Chris sentou ao sofá e, entendendo o problema, beijou minha têmpora esquerda com carinho, voltando a esfregar as mãos pelas minhas costas.

Minha cabeça continuava repetindo as frases que leu no meu breve momento na internet.

“Pai de estrela da The Travelers vive na rua, catando lixo”,Nossa, essa garota mesquinha não ajuda nem a própria família”, “Ela comprou a porcaria de uma ilha e não dá um prato de comida para o pai”.

Pai.

Aquela palavra era gosma podre na minha boca e, enquanto a bile subia pelo meu esôfago, meu corpo entrou em colapso e me levou à crise extrema, mesmo depois de eu ter acreditado que tinha superado.

Porra nenhuma.

Existem algumas coisas que não somos capazes de superar, nunca. A gente só aprende a conviver com aquilo, começa até acreditar que está tudo bem, mas bastava um chute em nossas canelas para nos afundar na mesma lama até o pescoço e sufocar até a morte.

Piper me ofereceu uma caneca de chá assim que minhas mãos pararam de tremer. Com Hope de um lado, Chris do outro e Piper, sentada sobre a mesinha de centro da minha sala, à minha frente. Estava bem. Estava protegida. Minha família estava aqui. Eu ia lidar com isso.

— Meu amor — Chris me chamou. — Você vai precisar falar sobre isso, sabe, não sabe?

Eu sabia. Sempre soube que, em algum momento, a fama me cobraria aquele preço. Imaginei que alguém me perguntaria da minha família biológica e eu tinha ensaiado minhas respostas, mas estavam todos encantados com a história dos irmãos talentosos que ninguém nunca se atreveu. A maioria das pessoas sequer questionava e achava que éramos irmãos, mesmo e, apesar de sermos essencialmente diferentes, tínhamos nossas similaridades: o mesmo sorriso, o mesmo nariz, o formato do queixo…

Achei que seria mais fácil, menos invasivo e, certamente, não imaginei que me colocariam de vilã.

Abaixei a cabeça, mas concordei silenciosamente, bebendo meu chá. Chris beijou minha têmpora mais uma vez, enquanto Hope ainda esfregava meu cabelo com força porque sabia que a fricção sempre me ajudou a concentrar e melhorar.

— Podemos chamar a Mary Ann, se quiser — minha irmã sugeriu. — Conseguimos qualquer programa que quiser. Chamamos a mamãe. Tenho certeza que Michael vai aparecer assim que souber. Vamos estar todos aqui com você.

Chris e Piper concordaram imediatamente. A australiana chegou a se curvar para frente e colocar a mão sobre o meu joelho para mostrar-me que estava ali.

Encarei-os um a um, minha mente trabalhando na velocidade máxima para colocar as peças em todos os lugares. Neguei com a cabeça.

— Não quero TV — falei. Minha voz saiu muito mais grossa que o normal e tentei limpar a garganta, mas não resolveu. — Quero fazer nos meus termos. Ninguém perguntou minha versão antes de sair espalhando mentiras. Se for entregar minha história pra alguém, que seja alguém que se preocupa com a verdade.

Hope respirou fundo. Tinha certeza que ela me achava um porre. Para ela, só fazer sempre funcionava, enquanto, para mim, precisava ser feito de um jeito específico ou não iria dar certo.

— Eu tenho uma sugestão — Piper disse, levantando-se da mesa. Acenou para Christopher, empurrando-o para o lado enquanto ele ria, e ocupou o lugar, os dedos ágeis movendo-se na tela do seu celular, até que virou-o para mim. — Tem esse rapaz, aqui. Ele é um blogueiro alternativo, não é muito famoso, mas costuma ser gentil. Eu sigo ele há algumas semanas, ele fez uma matéria sobre a gente que foi super legal, então tenho acompanhado e ele postou sobre você hoje de manhã.

Peguei o celular, cautelosa. Hope se ocupou em me segurar pelos ombros, mas decidiu tampar minhas orelhas por precaução, porque era o que eu costumava fazer quando entrava em colapso.

Era uma mudança boa, devia relatar. Minha irmã finalmente me considerava forte o suficiente para acessar os gatilhos que poderiam me levar à crise.

Ele postou uma foto bem bonita, em preto e branco, minha com meus irmãos, em uma das sessões que fizemos juntos para revistas e propagandas. Aquela, em especial, era tão natural que parecia informal: eu e Hope abraçadas, com Michael nos abraçando por trás, o rosto apoiado atrás da minha cabeça.

Na legenda, se lia: “Vi várias matérias sobre a negligência de Tish Foster com seu pai biológico, mas ninguém pareceu se recordar que ela foi adotada pela tia aos nove anos e todas as vezes alegou não ter lembranças muito boas de sua infância. Pedi para uma amiga portuguesa fazer uma pesquisa simples com o nome do pai dela e encontramos matérias do início dos anos 2000, dizendo que ele foi acusado de fraudes trabalhistas em um processo de falência e que foi preso por homicídio. Não tivemos acesso aos processos e eu não quero teorizar, mas nós sabemos o que aconteceu a seguir: seus irmãos, Hope e Michael, cansaram de dizer que Tish era uma garota incomum quando chegou em sua casa. Não falava, não brincava. Tish também já alegou que sofria de distúrbios ansiosos severos, como TOC e fobia social. Então, antes de julgarem essa mulher, que acabou de inaugurar uma fundação que ensina arte para crianças carentes em uma favela que morou no Brasil, de ser mesquinha, vocês poderiam pensar melhor”.

— Sim — concordei, devolvendo o celular para Piper. Chris pegou-o para terminar de ler. — Podem pedir para Emilia organizar tudo, por favor?

— Claro — Hope finalmente soltou minhas orelhas e voltou a me segurar pelos ombros.

Chris recebeu várias ligações preocupadas, também, já que eu desliguei meu celular; Michael quase teve um colapso tão grande quanto o meu e Chris demorou um tempo para acalmá-lo e dizer que estava tudo bem, enquanto Hope ligava para tia Liah para evitar que ela se exaltasse também. Demorou até que Hope achasse que poderia me deixar sozinha com Christopher. Chegou a dizer que poderia dormir no sofá, mas informei-a que estava tudo bem e que ela e Piper podiam voltar para casa.

Quando nos deitamos na cama, Christopher estava me tratando como uma bonequinha de vidro, o que era bem semelhante a como fazia em nosso primeiro namoro. Cuidadoso ao extremo, carinhoso e mal me deixava sozinha, vigiando-me com o olhar.

— Me pergunto — murmurei, encarando o teto. Chris estava virado para mim, absorvendo cada mísera expressão do meu rosto. — Como conseguiram ir tão longe para encontrar esse homem, mas não descobrir o que ele fez.

Chris chegou ainda mais perto e passou seu braço por cima da minha barriga.

— Às vezes até descobriram — soprou, baixinho. — Mas só queriam ser maldosos.

Entortei o lábio e concordei com a cabeça.

— Acho que você tem razão.

Virei o rosto para olhá-lo e ganhei um beijinho rápido que me fez sorrir. Era quase ridículo como me sentia tão confortável com ele.

— Eu não sabia que ele não estava preso — disse. Percebi, em sua expressão, que se arrependeu de suas palavras assim que as disse. Estava curioso, mas não queria que isso me fizesse mal.

Virei-me para ele e levei uma mão ao seu rosto. Era tão apaixonada por Christopher que doía a ideia de perdê-lo outra vez. Ele ainda estava tentando entender a mulher que eu era agora, mas me conhecia profundamente, em parâmetros diferentes.

Me tornado mais forte com o tempo.

Naquela tarde me pegaram desprevenida, com as guardas abaixadas.

Eu não permitiria que isso acontecesse de novo.

— Eu sabia — contei-lhe. — Ele ficou preso por uns quinze anos. Estava trabalhando para Capitu quando foi solto. A gente se aproximou muito durante a pandemia e contei pra ela sobre o que aconteceu, então, ela manteve alguém de olho nele e, quando liberaram ele da cadeia, me avisou. Chegou a me perguntar se queria fazer algo sobre isso.

Chris me encarou profundamente, daquele jeito que fazia quando tentava ver além dos conceitos que tinha criado para mim, quando entendia que algumas nuances eram diferentes da garota que conhecei e quisesse atualizar a informação para amar essa minha parte nova também.

— E você fez?

Meus olhos encheram-se de lágrimas e neguei com a cabeça. Pensei tanto sobre aquilo na época, sobre como queria que ele sofresse pelo que fez com minha mãe, pela forma com que me destruiu, mas, em algum momento, cheguei a conclusão de que eu não me moldava pelas atitudes dos outros e não deveria converter minha índole por algo que não faria mais diferença na minha vida. O mal já estava feito, já fincara as raízes no meu coração e eu não precisava reproduzir ele.[2] 

Eu sempre poderia escolher ser melhor.

— Eu só queria conseguir esquecer a existência dele e, na maior parte do tempo, consigo — confessei. — Mas alguns dias…

Travei-me, mas não precisava dizer mais nada. Chris puxou-me ainda mais para perto e grudou nossos corpos, beijando minha testa, antes de me encaixar abaixo de seu queixo.

— Alguns dias são mais difíceis — completou. — E eu sempre vou estar aqui quando eles vierem.

Capítulo 2

Por sua causa

Por sua causa, eu nunca ando muito longe da calçada
Por sua causa, eu aprendi a ser cautelosa, pra que eu não me machuque
Por sua causa, eu acho difícil confiar
Não só em mim mesma, mas em todos a minha volta
Por sua causa, eu tenho medo

Nós agendamos a entrevista para o fim de semana seguinte e anunciamos a exclusiva pelas redes sociais. Durante a semana, pensei que duraria uma eternidade. Apesar do meu celular ter sido confiscado por Christopher pelo bem da minha saúde mental, às vezes, zapeando os canais da TV, me deparava com algum programa de fofoca falando sobre isso. Rolou até um papo de que criaram uma vaquinha para ajudá-lo.

Quase pedi para adiantar a minha entrevista, que colocasse no meio da semana, que fizesse às pressas, mas aguardei com impaciência.

Foi Michael que orquestrou o acesso à minha casa no dia da entrevista. Todos os meus amigos queriam estar lá, mas ele não permitiu. Estava tão nervosa ensaiando o que poderia falar que deixei-o fazer o que achava melhor para mim porque ele costumava acertar; Michael achava que encher a casa de gente, mesmo que fossem pessoas próximas, podia desencadear minha antiga fobia social, então limitou a Christopher, Hope, tia Liah, Emilia e Noah, o blogueiro. Gabriela também teve acesso à casa, mas estava no segundo andar, nos quartos, com o pequeno Andy.

O estúdio foi montando em minha sala com a gestão de Emilia e a supervisão de Michael e Christopher, tentando criar um ambiente agradável para ser o menos traumatizante possível. Quando a hora se aproximou, minha cabeça estava em um emaranhado de lembranças e Hope não saía do meu lado, atenta e cuidadosa. Talvez mais amorosa e compreensiva do que jamais foi comigo e o meu passado.

Foi olhando pra ela que soltei um suspiro cansado e passei os braços ao redor de tia Liah de forma inesperada.

— Você não precisa ouvir isso — disse-lhe, com carinho. — Não precisa ouvir as coisas que eu vou dizer.

Se fosse com Hope, não gostaria de ouvir. Não sabia quanto dos detalhes tia obteve no passado; de mim, nada. Não achava justo, depois de tantos anos, levá-la a saber o quão ruim foi. Ela era provavelmente a única que sentia a falta de minha mãe tanto quanto eu, já que Hope e Michael só a conheceram por voz e foto.

Ela beijou minha testa com carinho e passou a mão pelos meus cabelos.

— Nunca deixaria você sozinha, minha princesa.

Sorri e concordei com a cabeça, sentindo seus lábios em minha testa mais uma vez, enquanto Emilia nos chamava para começar. Tia Liah apertou as mãos em meus braços antes de me deixar ir. Desci as escadas com Hope à minha frente e fui guiada para a sala. Emilia estava ao lado do rapaz que arrumava as luzes, disse-lhe algo e ele saiu rapidamente em direção à cozinha. As três câmeras ao redor das poltronas estavam ligadas sem ninguém as operando, mas, quando se moveram, percebi que eram automatizadas. Christopher e Michael estavam no canto da parede, observando tudo e sorriram ao me ver entrar. Noah estava sentado em seu lugar, já, agarrado a alguns cards e levantou-se imediatamente ao me ver.

— Tish, oi, muito prazer, é… — ele parecia mais nervoso que eu, até. Alguém contextualizou o assunto para ele, eu achava, mas apenas o suficiente para fazer as perguntas certas. — Queria te agradecer por ter me escolhido, quero dizer, eu nem sou tão grande…

— Agradeça a Piper — disse. — Te escolhi porque você parece gentil. Parece se preocupar com a verdade além da fofoca. Apenas… mantenha isso.

Ele agradeceu. Emilia me guiou para a poltrona nova, já que meus sofás foram substituídos por duas poltronas apenas para aquela entrevista.[3] [4] 

Foram 30 segundos tenebrosos, de coração acelerado e controlar a respiração, antes de iniciar a transmissão ao vivo.

— Boa noite, pessoal. Sou Noah Chester e estou aqui hoje na residência de Tish Foster para conversar com ela sobre os últimos boatos que saíram sobre seu passado. Olá, Tish.

— Boa noite, Noah, boa noite, pessoal — cumprimentei.

Respirei fundo mais uma vez, tentando controlar minha respiração.

— Então — Noah também não estava muito relaxado, mas parecia se esforçar mais do que eu. — Na semana passada, lançaram uma matéria sobre seu pai estar catando lixo para poder comer e se iniciou uma série de boatos discordantes, ataques e organizações para ajudá-lo. Mas você não recebeu nada disso muito bem, estou certo?

Entortei a boca.

— É — respondi. — Acho que errei em ter deixado isso de lado, em nunca ter falado sobre isso. A verdade é que ninguém nunca perguntou e… não é um assunto que me agrada, então fui só deixando de lado. Sabe? Minha família toda está aqui, são as pessoas que eu mais amo no mundo e nem eles sabem. Não de tudo. Uns sabem uns pedaços, talvez tenham montado o quebra cabeças, mas, é… — e dei de ombros.

Noah curvou-se para frente, tentando parecer relaxado e me ajudar com meu desconforto ao mesmo tempo.

— Vamos começar pelo começo, então — sugeriu. — Você viveu no Brasil até que idade, antes de vir morar com seus tios?

— Uns nove — respondi.

— E você conviveu com seus dois pais até essa idade?

— Antes de ir para o abrigo, sim — concordei.

Noah estava tentando me fazer falar e, mesmo que tivesse treinado, eu continuava fugindo do assunto, usando as respostas curtas. Ele, porém, mesmo em sua inexperiência, sorriu e entendeu, continuando.

— Por que não nos conta um pouco de sua vida antes de ir para o abrigo?

Concordei com a cabeça. Era por isso que ele estava ali, a sua gentileza. Qualquer outra pessoa já teria rasgado o muro que eu levantava para me proteger. Vi Christopher se movimentar para fora da sala e tentei disfarçar meu desconforto com um sorriso.

— Eu tinha uma vida tranquila, achava. Era uma criança normal — pontuei. — Ia para a escola, brincava, me divertia. Tinha uma condição financeira razoável, eu acho, até que as coisas começaram a mudar. Eu passava a maior parte do tempo com a minha mãe. Ela era linda — sorri com a lembrança. — Linda. E tinha uma voz… O que eu mais me lembro era de sua voz. Minha mãe não falava português muito bem, acho que a maior parte da língua, ela aprendeu comigo, então ela era um pouco isolada, o que me isolava também. Ele… Ele não era gentil. Bebia muito. Não tenho… não tenho memórias muito claras dele, mas… ah… morávamos na mesma casa, mas não interagíamos muito. Eles brigavam muito. Lembro das brigas.

Parei de falar. Noah demorou um pouco mais para perceber que eu tinha encerrado.

— Tish, sei que é difícil, mas gostaria que nos contasse do porquê foi para o abrigo — pediu.

Abaixei a cabeça e concordei. Antes de responder, senti o braço da poltrona afundar.

— Desculpa a intromissão — Christopher pediu. Encarei-o e ele sorriu, me tranquilizando. Colocou um copo de água em minhas mãos. — Você está indo bem — me garantiu, antes de virar para Noah. — Desculpe. Quando ela fica nervosa, perde a voz. Achei que um pouco de água pudesse ajudar.

Ele saiu do enquadramento, mas não se afastou. Bebi um pouco da água, agradecida, antes de continuar, colocando o copo no chão, ao lado do meu pé.[5] 

— Foi uma dessas brigas. Ele tinha bebido, eu acho. Minha mãe e eu estávamos cozinhando o jantar. Eu não fazia muita coisa além de traduzir as receitas pra ela. Ele chegou e os dois começaram a discutir. Foi uma discussão rápida em duas línguas e eu era muito criança pra entender todo o contexto. Minha mãe mandou eu ir para o quarto, mas não fui. Fiquei escondida chorando ouvindo os dois na cozinha. Eu ouvi… — Travei. Girei o queixo para o lado, fechando os olhos, desconfortável. — Ouvi um grito dela. Ouvi alguns barulhos, a porta, o carro acelerando. Chamei por ela — joguei a cabeça para trás, as memórias dessa parte eram vívidas para o meu próprio bem, sempre foram. — Eu fui… cheguei… — As palavras estavam começando a falhar, mas precisava continuar. — Ela ainda tava se mexendo. Acho… acho que eram espasmos — Não tinha nada no mundo que segurasse minhas lágrimas. — Foi… foi uma faca — com a lateral da mão, mostrei onde foi, na cabeça, começando na altura da sobrancelha e indo até o meio da cabeça. — Eu… Eu sabia que tava errado aquilo, achei que era o problema, então… Eu tirei. E… Sangue. Sangue. Muito sangue. Sangue. — Comecei a repetir. Hope foi a primeira a chegar para me socorrer, colocando as mãos na minha orelha. Michael chegou poucos milésimos de segundo depois, puxando minha mão para ele e começando a friccionar meu braço.

— Tudo bem — ele disse, baixinho. — Está tudo bem agora.

Eles me deram um momento. O copo de água voltou para minha mão. Bebi até o fim e ele sumiu novamente, não fazia ideia de para onde foi.

— Consegue continuar? — Hope perguntou. — Se não, acho que a gente sabe daqui.

Eu concordei com a cabeça, porém.

— Eu limpei tudo. Não entendia o que estava acontecendo, achei… achei que ela estava dormindo, então limpei tudo pra ela não dormir no sujo — expliquei. — Acho que depois de um tempo, comecei a achar estranho. Eu abanava ela porque… tinham… tinham moscas — as palavras estavam começando a ficar pesadas e gosmentas na minha boca, meu maxilar mais duro e difícil para movimentar. — Gritei. Tive fome. Gritei. Foram… acho… Quatro. Quatro. Quatro.

— Quatro dias, ao que parece, até que encontraram as duas — Michael completou pra mim. — Ninguém soube precisar. A Tish não… A Tish não falava quando encontraram ela. — Ele passou a mão pelo meu ombro, ainda friccionando e eu deixei meu maxilar travar de vez. Hope continuava com as mãos em minhas orelhas. — Ficamos sabendo um pouco depois, demoraram pra achar a mamãe. Quando ela soube, viajou correndo.

— Ela disse que ia buscar nossa irmã — Hope contou. — Ficou uns dias fora. Eu não entendi nada, mas fiquei tão… tão animada em ter uma irmã. A gente nunca tinha se encontrado antes. Sabia que tinha uma prima, claro, mas… sei lá, eu só aceitei.

— Eu entendia melhor — Michael explicou. — Meu pai conversou comigo. Explicou que tinha acontecido uma coisa horrível e que a gente ia precisar cuidar da Tish e que eu tinha que ser um bom irmão pra ela — ele respirou fundo. — Foi… foi… — ele pareceu pensar a palavra com cuidado. — Complicado. Ela chegou sem falar nenhuma palavra. Nada. Não tinha muita reação, também. Ficava lá, parada, olhando pro teto.

— Parecia que ela só tava existindo — Hope completou. — Era tão frustrante.

— Era terrível — Michael continuou. — Ela só reagia quando eu cantava pra ela. Então a gente começou a ensinar pra ela, a tocar e cantar, pra ver se ajudava. Ela saiu da inércia, mas então…

— Ela começou a limpar a casa inteira — Hope concordou com a cabeça. — Ninguém sabia o que fazer. Ela ia pra terapia, tomava remédio e limpava a casa inteira.

— E nunca falava uma palavra na frente de ninguém que não fosse de casa — Michael contou. — Foi assim por um longo tempo.

— Por que vocês fazem isso? — Noah perguntou, curioso, apontando para os gestos de Hope, que tampava minhas orelhas, e Michael, que friccionava meus braços.

— Ela faz isso — Hope explicou. — Quando ela entrava em crises, ela fazia isso. Não tem acontecido muito, mas deixa ela mais calma. A gente só tenta ajudar.

Eu estava começando a me acalmar. Minhas lágrimas já diminuíam e minha respiração não estava mais tão descompassada. O maxilar, porém, continuava sem querer se mover.

— Quando foi que ela… — Noah parou e tentou formular-se melhor. — Quero dizer, ela hoje é falante, parece bem. Como isso aconteceu?

Hope e Michael se entreolharam atrás de mim. Não tinham acompanhando a maior parte do processo. Para eles, eu saí travada e voltei solta.

— Começou com Christopher, eu acho — Michael admitiu e eu arregalei os olhos, admirada que ele soubesse. — Quando eles se conheceram e começaram a namorar. Eu… não era muito a favor, mas… Ele fazia bem pra ela. Dava pra ver.

Hope concordou com um aceno de cabeça.

— Ela começou até a falar com as pessoas na escola — contou. — Até quando ela não gostava de algo, respondia. Fez amizade com Matthew logo depois. No geral, ela só ficava sozinha ou andava com quem eu andava, mas depois de Christopher, começou a escolher os próprios amigos.

Percebi quando Christopher deu um passo para frente. Se eu não podia falar, aquela parte da história era responsabilidade dele. Foi Michael que cedeu o seu lugar no braço da poltrona para ele, que ocupou rapidamente, envolvendo minha mão. Hope afastou suas mãos da minha orelha por um momento, testando se eu estava realmente mais calma e acenei para ela com a cabeça, antes que ela deixasse os braços caírem e acabou por se afastar também.

Chris beijou o topo da minha cabeça com carinho. Seus olhos estavam molhados em assistir meu sofrimento. Ele sabia de quase tudo. Quase mais que meus irmãos, e amou cada pedacinho quebrado meu. Quando Michael saiu de casa e eu comecei a perceber que teria que me virar sozinha, foi Chris que apontou a direção certa pra mim.

Eu jamais poderia ser grata o suficiente.

— Vocês se conheceram pelo Michael, é isso? — Noah perguntou.

Chris concordou com a cabeça.

— É… Michael falava muito das irmãs, falava muito com elas. Eu vi… Fotos antes. Achei a Tish linda na hora — Eu deitei minha cabeça em sua perna e ele começou a acariciar meus cabelos com displicência. — Ela foi visitar a gente no hotel quando estávamos compondo e eu percebi que ela era diferente na hora. O lugar inteiro era meio quebrado, sujo, ela parecia que teria um colapso nervoso a qualquer momento. Eu só… fui gentil. E, sei lá, a gente começou a flertar, então chamei ela para dar um passeio e a gente se beijou. Então… então começamos a sair e logo depois a namorar.

— E o que você fez que ela começou a interagir com as pessoas?

Chris suspirou e chegou a parar de acariciar meus cabelos por um momento para refletir o que responder.

— Olha… Eu acho que a família dela sempre protegeu ela muito e é totalmente compreensível — ele deu de ombros. — Quando a gente se conheceu, ela não fazia mais terapia. Tinham desistido porque ela não evoluía, então só aprenderam a conviver com isso. O que eu acho é que ela já estava pronta, sabe? Pra começar a melhorar — estalou os lábios. — Ela só não fazia isso porque não precisava. Ela tinha quem falasse por ela, entende? Tava todo mundo ali, em cima, pronto pra proteger ela antes dela precisar e, não me leve a mal, ela ainda precisava, mas não com tudo. Entende? Não acho que eu tenha feito nada demais. Eu só instigava ela a falar comigo, com outras pessoas. Fazia ela pedir informações e fingia ficar no telefone pra ela fazer pedidos de comida. Essas coisas. Então ela começou a se soltar aos pouquinhos.

Noah concordou com a cabeça e parecia bastante satisfeito com o andamento de tudo.

— Olha, se você não se incomoda, gostaria de perguntar… — Pediu. — Vocês recentemente reataram e nós ficamos sabendo que houve esse momento, muitos anos atrás, em que estiveram juntos e que ninguém sabia nada disso. Tenho certeza que, como eu, o mundo inteiro queria saber o que aconteceu e porque acabaram não ficando juntos.

Chris riu. Ele não era de expor muito sua vida pessoal, mas ele mesmo que colocou nosso relacionamento na roda no momento em que reatamos, então sabia o que viria pela frente. Tinha gostado de Noah, ao que parecia, e provavelmente se devia à gentileza do rapaz ao conduzir a entrevista comigo.

— A gente já se gostava. Muito — contou. — Mas acho que éramos muito novos. Não estávamos prontos, nenhum dos dois. Eu… Eu fui imaturo. E a Tish não conseguia sentar e conversar abertamente, então a gente simplesmente não conseguiu se entender. Então a gente terminou e ela decidiu ir morar no Brasil. Ainda tentei fazer ela ficar, mas… foi o momento dela. Acho que foi quando ela realmente começou a lutar por ela. Ela partiu meu coração, foi embora, mas… Ela fez isso por ela, eu acho. E foi a melhor coisa porque jamais pensei… jamais pensei que ela seria a pessoa que ela é agora. Eu sonhava com isso, sabe? Quando a gente ama alguém assim, a gente só quer que ela seja a melhor versão que ela pode ser e eu queria isso pra Tish, mas nunca pensei que ela conseguiria se livrar de tudo, não com, sabe, isso tudo que aconteceu com ela, mas ela é forte e ela fez. Então, quando ela voltou pra cá, eu não conseguia acreditar. E, eventualmente, acabamos trilhando o caminho de volta um pro outro.

Ele se curvou pra mim e beijou minha têmpora. Fechei meus olhos e uma última lágrima acumulada escorreu pelo meu nariz.

— E como foi pra você morar sozinha no Brasil, Tish?

Senti Chris rir e ele balançou a cabeça negativamente à pergunta.

— Desculpa, mas não acho que ela vá falar mais nada hoje, Noah — explicou.

Noah olhou de Chris para mim e, me encarando, arriscou um sorriso triste e compreensivo. Aprumou-se na poltrona.

— Está certo, então — declarou. — Tish, queria te agradecer pela força em dividir sua história conosco e agradecer sua família por estar aqui para nos ajudar a entender — encerrou. — E pra você, que acabou de assistir — ele olhou para a câmera, falando diretamente com os telespectadores. — Não acho que jamais haverá um exemplo tão claro sobre como somos rápidos em julgar alguém sem entender as motivações e a história por detrás. Durante a última semana, vocês muito rapidamente pegaram uma das mais gentis e filantropas artistas pop da atualidade e a transformaram em uma vilã por uma história cheia de furos e com poucas fontes. Em nenhum momento pesaram o caráter que ela tem nos mostrado, apenas julgaram que ela vestia uma máscara de bondade enquanto saía por aí, fazendo o mal. Eu espero, de todo o coração, que tenham aprendido sua lição. Obrigado pela sua atenção.

Capítulo 3

Canção do Amor Secreto

Nós ficamos atrás de portas fechadas

Todas as vezes que te vejo, morro um pouco mais

Momentos roubados, que roubamos de volta

Hye foi a segunda.

Aconteceu depois de todo o meu processo de cura, o que foi mais demorado que achávamos. Chris disse que eu não falaria pelo resto do dia, mas a verdade é que fiquei em silêncio por mais ou menos uma semana. Preocupado comigo, ele cuidou de cada detalhe, orquestrou e agendou as visitas e não permitiu que ninguém ficasse muito tempo, além de tia Liah e Hope, que dormiram a primeira noite comigo. Michael teria permissão também, se não estivesse às voltas com Andy.

Dave foi o primeiro a tentar se instalar no meu sofá, com Chelsea a tiracolo. O casamento dos dois estava se aproximando, mas tiraram uma manhã inteira conosco. Dave se esforçou em me fazer rir e procurou um restaurante brasileiro para me conseguir brigadeiros. Fui muito grata, mas não consegui dizer. Piper chegou com Hope, tentando se aproveitar das regalias da minha irmã em passar o dia comigo. Distraiu Chris conversando sobre bumbos, mas acabou sendo expulsa logo após o almoço, quando Hye e Emilia apareceram e Chris insistiu que havia uma lotação máxima. As duas pareciam não estarem mais disfarçando tão bem, mas Hope não percebeu. Elas foram embora juntas depois de Chris insistir que ela não precisava dormir lá outra noite.

Meu irmão deu uma passada rápida para me ver, acompanhado de tia Liah, que me abraçou a maior parte do tempo em que ficou ao meu lado. Foram logo porque Gabriela estava sozinha e tia Liah ia ajudá-los com o bebê.

Então falei a primeira coisa em quase dois dias e foi o nome dele.

Chris estava cuidando de mim com o máximo de delicadeza possível e tinha conversas comigo em que só ele falava. Era o jeito dele de tentar me colocar para fora da minha bolha mental, mas meu maxilar continuava travado e até mesmo para comer era difícil. Fui eu que avancei para cima dele, buscando conforto em sua boca e foi inevitável irmos adiante. Quando cheguei lá, então, gritei seu nome. Chris desabou sobre mim e riu com os lábios contra o meu queixo.

— E aí ela fala — brincou.

Mas só voltei a falar no dia seguinte, depois de Alex e Alika irem embora, no horário de visita de Gabriela, Michael e do pequeno Andy, em meus braços.

— Lindo — disse para meu sobrinho, acariciando sua bochechinha enquanto ele dormia.

O suspiro de alívio de Michael foi tão alto que pude ouvi-lo, mesmo que ele estivesse lavando minhas louças.

Eles acabaram indo embora quando Andy começou a ficar irritado, estranhando o ambiente. Chris me deixou sozinha alguns momentos para desvendar um telefone para pedir comida entre os panfletos da geladeira.

Eu queria muito voltar ao normal.

Levantei-me, decidida.

— Chris! — Chamei. Meu maxilar travou novamente e eu bufei enquanto ele vinha correndo da cozinha. Olhou-me com curiosidade divertida ao me ver de pé, as mãos apertadas em punho e com a determinação estampada na cara.

— Sim? — perguntou.

Entranhei minhas unhas na palma e me forcei para fora das minhas paredes de proteção com o máximo de força que consegui.

— Vou… Vou… Tom… Tomar… To… — grunhi com a força que fazia para as palavras saírem.

— Tomar banho? — Chris perguntou, tentando me ajudar. Concordei com a cabeça.

Ficamos nos olhando sem que ele entendesse o que eu queria dizer. Ou, pelo brilho em seu olhar, tinha até entendido e queria me fazer dizer.

— Que… Que… Quer… Hm… quer… Vi… — Bufei. Fechei os olhos e balancei com a cabeça de um lado para o outro, frustrada.

Ele estava ao meu redor no momento seguinte. Pegou-me pelo rosto e beijou minha boca com carinho.

— Vou — respondeu. — Mas volta pra mim?

Abri meus olhos para ver os seus cristais azuis me encarando com a sinceridade do seu pedido. Meus dentes tremiam com a força que eu fazia para que se afastassem.

— Sim — concordei. — Sim.

Foi um árduo caminho de volta e foi com Chris que consegui retornar. Eu travava, mas era só ele estar por perto que sentia a pressão diminuir. Ao perceber que eu reagia melhor ao estar sozinha com ele, vetou as visitas por uns dias e teve que ficar quase uma hora ao telefone com Michael para garantir que eu estava melhorando.

Demorou uma semana inteira para que eu parasse de gaguejar e parasse de sentir meus dentes grudados um no outro e foi só aí que tive permissão para verificar as redes sociais e a programação normal da TV. Ainda encontrei posts sobre mim, gente desesperada que doou dinheiro e queria de volta, várias mensagens de apoio e uma galera me acusando de drama e sentimentalismo barato.

Quando começamos a divulgar o nosso segundo álbum, no mês seguinte, ainda não estava no meu melhor momento. E, claro, a primeira pergunta foi sobre o meu passado.

— Me desculpe — respondi, ao invés. — Já disse tudo que queria dizer sobre isso.

— Não vamos responder perguntas sobre a infância da Tish — Hope me defendeu. — Tish demorou mais de uma semana pra voltar a falar e se ela perder a voz de novo, como vamos nos apresentar hoje?

Foi só quando eu ri que as pessoas nos acompanharam e voltamos a programação normal, com perguntas sobre o novo álbum e o que estávamos apresentamos nele.

Infelizmente, não fui a única a pagar o preço alto.

Acordei em um susto com meu celular vibrando desesperadamente. Passava um pouco mais de cinco da manhã e me desvencilhei dos braços de Christopher para me sentar e alcançar o aparelho na mesa de cabeceira. Ele parou de tocar na hora em que tentei atender.

— Tudo bem? — Chris coçou os olhos e me perguntou. Dormia comigo todos os dias; ele ainda tinha uma casa, só quase nunca ia nela.

— Não sei… — respondi. Desbloqueei o aparelho e vi a mensagem de Hope enviada apenas dois minutos antes, exigindo que eu fosse para a casa de Hyelin com urgência. Franzi a testa e respondi um “ok” seguido de vários pontos de interrogação. — Hope quer fazer uma reunião.

— Agora? — Chris estranhou.

Estranhei também. Enviei os pontos de interrogação para Piper e Alika também. Estava quase enviando-os para Hyelin quando Alika me respondeu com uma foto.

— Ah, não — choraminguei. Virei o aparelho para Chris poder entender, o que ele respondeu com uma careta. Era uma montagem com três fotos, uma escura de Hye e Emilia se beijando dentro de um carro e duas mais claras delas sozinhas, Emilia dentro do carro e Hye na rua, com um sorriso, apenas para que não restassem dúvidas. — Urg. A gente socou um monte de entrevistas hoje pra deixar o fim de semana livre pro casamento. Vai ser um massacre.

Chris estava quase adormecendo novamente quando me levantei para começar a me arrumar.

— Boa sorte — murmurou, molenga, enquanto eu abria o armário para escolher uma roupa. Depois, sentou-se no susto, um pouco mais desperto. — Espera. Precisa de ajuda?

Dispensei com um sorriso e ele voltou a dormir quase imediatamente.

Meia hora depois, estava à porta da casa de Hyelin. Fui a última a chegar, mas minhas amigas ainda estavam batendo na porta e Hope informou que Hye não atendia ao telefone de forma nenhuma. Demos sorte que era cedo e só havia um fotógrafo fazendo plantão ali.

Hope estava inconformada e tocava a campainha sem parar.

— Como eu não sabia disso? — reclamou.

— Bom, eu sabia — Alika confessou. Olhei pra ela, arregalando os olhos. Esse tempo todo e eu podia ter fofocado com alguém que não fosse Chris? — Estava fazendo compras com Emilia e insisti que ela deveria experimentar alguma coisa e ela me deixou com o celular dela. Hye ligou e o nome era “meu bebê”, então…

Hope parecia que ia esganar alguém. Piper, por outro lado, começou a rir do apelido.

— Eu também sabia — contei, apenas para tentar salvar a vida de Alika. — Ouvi as duas se beijando e conversando. Naquele dia que descobriram sobre eu e Chris na entrevista. Elas estavam se pegando no camarim.

Alika me encarou do mesmo jeito que eu fiz com ela e soube que ela também adoraria ter conversado com alguém sobre, mas nós duas mantivemos a discrição.

— Por que ninguém me contou? — Hope indignou-se, ainda massacrando a campainha.

— Não era meu segredo pra contar — dei de ombros.

A porta se abriu naquele momento e Hye apareceu. Os cabelos bagunçados, os olhos vermelhos e o rosto todo inchado.

— Ah, querida — Alika a envolveu em um abraço ainda na porta.

— Entra — Piper exigiu. — O filho da puta vindo atrás. Entra agora.

Empurrei as duas para dentro, sentindo o flash da fotografia atrás de nós. Piper correu para fechar a porta quase na cara de Hope, que demorou um pouco mais para reagir.

Apertei o ombro de Hope, que encarava Hyelin chorando nos braços de Alika de uma forma dolorosa e alta, muito diferente de sua personalidade sempre contida.

— Não — disse, simplesmente, para minha irmã. Ela continuou encarando por mais alguns momentos e foi a última a se juntar no bolo que formamos para conformar Hye.

Ela não queria nos seguir para as entrevistas daquele dia e tudo estava uma bagunça porque Thomp insistiu que Emilia precisava ser afastada do trabalho e Karol, a segunda em comando, não estava 100% familiarizada com as coisas que precisavam ser feitas.

— Eu quero a Emilia aqui — exigi, no meio da conferência telefônica que estávamos fazendo. Não era de fazer exigências quando pessoas mais experientes que eu me falavam o que era melhor, mas também não era de aceitar as coisas que achava erradas. — Nenhuma de nós está ofendida que Emilia e Hye estão juntas. Ela é uma profissional incrível e, Karol é ótima, mas Emilia é a única que vai resolver isso tudo com um estalar de dedos. E, de quebra, talvez ela consiga fazer a Hye parar de chorar!

Emilia foi arrastada de volta à confusão no momento em que entramos no estúdio. Ela e Hye se afastaram da gente e tiveram uma conversa rápida que resolveu o problema do choro. Pedi a maquiagem e o cabelo mais rápidos para voltar à Hye. Empurrei sua porta enquanto ela ainda estava sendo maquiada, escondendo o inchaço e a vermelhidão do choro. Ela acenou para que eu entrasse e perguntou se eu estava chateada com ela por não ter lhe contado enquanto eu tentava ensinar técnicas de paquera para ela e Hope.

— Técnicas de paquera vão funcionar com qualquer pessoa — eu ri. — E, tudo bem. Eu já sabia há algum tempo.

Ela arregalou os olhos e curvou-se para frente, quase se borrando por inteiro.

— Como assim? — assustou-se. — Como sabia? Eu… Eu…

— Eu vi — respondi. — Vi vocês juntas pela porta um tempo atrás. Alika também sabia — contei-lhe. Hye estava chocada. — Acho que você deu sorte. Se você qualquer uma das outras duas, o mundo inteiro já estaria cansado de saber.

Ela riu, mas sem emoção nenhuma. Seus olhos estavam desfocados e era claro que o pensamento estava longe. Olhou para a maquiadora como se a avaliasse e, depois de um momento, acabou soprando o fio de cabelo que escapou da proteção.

— Meus pais não vão aceitar nunca — confessou. — Eu sabia que teria que anular essa parte minha se quisesse ser famosa e estava disposta… Mas conheci Emilia e… Agora…

— A gente tá junta, tá? — cortei-a. — Pro que você precisar.

Ofereci minha mão a ela e apertamos com força.

Os dias que se seguiram foram complicados para Hye. As entrevistas que acumulamos para termos uns dias de folga pra o casamento de Dave e Chelsy perguntaram incansavelmente sobre o assunto e não importava o quanto tentávamos disfarçar, sempre voltava para o mesmo lugar. Chegou ao ponto de desistirmos de um programa por ser muito invasivo.

Hye sequer conseguiu ficar muito tempo no casamento. Logo após a oficialização, ela abraçou os noivos e se retirou. Também não vi Emilia na festa.

Chris beijou minha cabeça ao ver minha expressão preocupada.

— Elas vão encontrar um jeito — murmurou, baixinho, passando o braço ao meu redor. — E a gente vai ajudar.

Eu sabia que sim, mas não conseguia evitar sentir aquele aperto no meu coração por ver minha amiga sofrendo.

— Não acho que atrapalhe, Thomp — insisti.

Estávamos em reunião já há quase uma hora. Hyelin foi poupada porque a maior parte dos assuntos envolvia o seu relacionamento recente. Tínhamos algumas coisas para reformular na banda e havia aquela instabilidade no ar, causada pelos últimos acontecimentos. Eu ainda sentia ecos do ataque que sofri e agora estava mostrando as caras novamente através do romance de Hyelin e Emília.

Que não era nada demais. Ninguém ligaria se as pessoas não fossem ridículas e preconceituosas.

— Será que não ia ser melhor para elas?— Alika perguntou.— Quero dizer, eles focam muito no fato de Emília trabalhar para gente

— A minha preocupação— Thomp iniciou, sua voz de trovão dominando o ambiente da nossa quase informal reunião. — É que as pessoas comecem a minimizar cada conquista de Hyelin. Como se ela pudesse ser favorecida por estar namorando com alguém de dentro da produção de vocês.

Continuei balançando a cabeça negativamente, insatisfeita. Piper estava muda, o que dificilmente significava boa coisa. Hope enfiou os dedos em seu cabelo cheio, tentando encontrar uma resposta para aquele problema que não causasse danos grandes as nossas amigas.

— É injusto demais— continuei reclamando.

— O que a gente precisa fazer agora é dar um jeito de proteger as duas e abafar esse acontecimento — minha irmã estava tentando ser prática em meu lugar, já que eu estava perdida em reclamações que não nos levavam a lugar algum. — Talvez se a gente desse férias para Emília e não tocasse mais no assunto. Fugisse das perguntas sobre Emilia se ainda está trabalhando para gente ou não... dar tempo ao tempo para eles esquecer em isso e ela voltar para a gente. É o tempo delas criarem proteção, mecanismos que ajudem elas a lidarem com a situação. A Hye nunca contou para família...

Thomp não parecia muito satisfeito. Ele queria muito tirar Emília da cena porque achava que mantê-la só faria as coisas piorarem. Encontrou muita resistência em todas nós, que adorávamos Emília como profissional e pessoa, além do bem que ela fazia para nossa amiga de banda.

— E aí ela pode voltar para nós assim que as coisas acalmarem— Piper finalmente disse alguma coisa.

— A gente pode tentar distrair eles com outras informações— Alika declarou. — Sobre o álbum, sobre as músicas. Sei lá

— As pessoas ainda estão muito curiosas sobre Christopher e eu. Tenho certeza que a gente pode fazer alguma coisa acontecer, ele vai topar.

— Podemos fazer alguma coisa os quatro — Alika concordou, incluindo Alex.

Hope soltou um longo suspiro. Franzi minha testa em sua direção, percebendo seu desconforto.

— Talvez fosse uma boa ideia eu falar sobre meu novo namorado? — perguntou. Hope Estava sempre com o novo namorado nunca era uma novidade muito empolgante. Sabia que ela estava com relacionamento com alguém e eu mesma não tinha tentado esmiuçar o mistério. — Acho que se ele for o Mark Hopkins... talvez ajude?

Puta que pariu. Ela ainda me perguntava se talvez ajudasse.

— Ai graças a Deus! — Piper soltou uma gargalhada aliviada. — Não aguentava mais guardar esse segredo.

Mark Hopkins era filho do maior hoteleiro do mundo. Herdeiro de uma fortuna bilionária, era conhecida por ser mulherengo e um dos solteiros mais cobiçados da atualidade. Eu estava comprometida, mas não era cega e mal podia acreditar que Hope guardou aquele segredo de mim enquanto reclamava do segredo de Hye.

Cerrei os olhos em sua direção e continuei balançando a cabeça negativamente. Hope deu de ombros e soltou um sorriso amarelo.

Thompson soprou o ar para fora de seu peito, cansado, mais ao menos parecia satisfeito com as soluções encontradas.

— Tudo bem, então— ele disse. — Vamos ao plano de contenção.

Por Hye, ela não sairia de sua casa. Mas nem sempre a gente conseguia o que a gente queria. No meio do anúncio do nosso segundo CD e com as músicas subindo como temperatura no verão nas paradas, havia muita coisa a ser feita apesar do seu drama pessoal.

Todas nós nos esforçamos para tirar o foco de Hyelin. Hope deixou que todos soubessem de seu relacionamento com Mark Hopkins o que já mudou o tipo de pergunta que recebíamos. Eu e Alika focamos em aparecer em todos os eventos e fotos e expondo nossa vida pessoal ao máximo para que as matérias fossem focadas em nossos relacionamentos e não no de Hyelin. Já Piper, que não tinha nenhum relacionamento, tentou causar deixando-se ser pega pichando uma ponte. Pelo time, ela foi presa e pagou fiança.

Quase todo mundo já havia esquecido do drama de Hyelin e Emília àquela altura do campeonato.

Quase todo mundo.

A nossa amiga sul-coreana vivia em um redemoinho problemas familiares. Seus pais sequer atendiam suas ligações, a ignoravam desde que haviam descoberto sobre Emília. Isso tirou toda a vida e alegria que antes emanava dela.

Mas devia confessar que jamais teria esperado mesmo vindo de Matt.

 

Capítulo 4

Quem

Quem é você?
Porque você não é a pessoa pela qual me apaixonei, amor
Quem é você?
Porque algo mudou, você não é a mesma, eu odeio isso

Eu contei para Christopher o que faria antes de tomar qualquer atitude. Ele não gostou da resolução, achava que qualquer outra pessoa poderia fazer, mas também apoiou. Talvez se não estivéssemos mais na lua de mel de início de relacionamento, teria rolado uma discussão mais acalorada. Eu, em seu lugar, com certeza não aceitaria tão bem.

Eu sabia que Matthew estava na cidade, Hye estava cansada de reclamar disso comigo. Seu irmão não respondia as mensagens mesmo estando de passagem por Londres. Conhecia muito bem o hotel onde estava hospedado e pedi para Karol dar uma pesquisada. Recebi uma mensagem fresquinha com informações, beijei meu namorado ciumento na boca e saí de casa, vestida para ser fotografada.

Apesar do aviso, achava ser quase uma justiça poética que parte do meu plano era criar boatos de que eu estava traindo Christopher com um antigo affair.

— Kim Matthew, por favor — retirei meus óculos escuros na recepção, não permitindo dúvidas sobre quem eu era.

Haviam algumas vantagens de estar com a cara estampada em todos os lugares porque o atendente nem titubeou em ligar para o quarto de Matt. Depois de algumas trocas de palavras, recebi autorização para subir.

Com instruções claras, não demorei a encontrar o quarto onde Matthew estava hospedado. Apertei a campainha e passos ecoaram dentro do quarto. A porta se abriu com uma força mais que exagerada e visualizei a expressão zangada de Matt para mim.

— O que você quer? —ele perguntou, sem delonga alguma.

— O que é isso, Matt? — perguntei, brincando, empurrando-o para o lado e entrando em seu quarto sem ser convidada. — Isso é jeito de tratar uma velha amiga?

Ele riu, demonstrando deboche. Nossa amizade quase foi destruída com nosso pequeno caso. Matt saiu machucado depois que eu não aceitei que nos tornássemos sérios, além de não conseguir esconder meus sentimentos por Christopher.

— Você não pensou muito nisso quando foi minha vez, né? — indagou.

Levantei o indicador ao ar sacudindo levemente e apontando para ele.

— Você tem um ponto aí.

Mesmo o assunto sendo esquisito, nossas almas tinham uma sincronia, então ele acabou rindo da minha brincadeira, aliviando o clima o suficiente para que voltássemos agir como os grandes amigos que sempre fomos.

— Não vai me dizer que terminou com Christopher e veio aqui afogar suas mágoas.

Peguei uma bolsa que estava sobre uma poltrona e joguei a sobre a cama, sentando em seu lugar. Cruzei as pernas demonstrando que não estava planejando ir ao lugar algum por algum tempo.

— Você sonha — brinquei. — E sabe que o assunto não é esse, Matt... — informei-o.

Matthew revirou os olhos e soltou o ar com força. Ele nunca foi muito bom em esconder seus sentimentos, ao contrário de sua irmã. Talvez por isso fosse tão bom ator.

Ele estava irritado, frustrado e havia algum quê de decepção em seu olhar, não sabia se de mim ou de Hyelin.

— Nós não vamos falar sobre isso, Letícia.

Gelei quando eu vi meu nome sendo pronunciado da maneira incorreta. Ninguém nunca me chamava pelo nome, raramente acontecia com tia Liah e era sempre quando eu fazia algo muito errado. Não achava que era o caso agora.

— Sua irmã está precisando de ajuda — aleguei, séria. — Ela tentou falar com você várias vezes. O que está acontecendo?

Ele desviou o olhar, mas mesmo de lado identifiquei sua raiva. Apesar de nossa história bagunçada, ele era meu amigo e eu conhecia bem o suficiente para vê-lo se mostrar uma pessoa completamente diferente de quem eu acreditei que fosse.

— Não tem nada acontecendo. Só não quero falar com ela.

— Eu não lembro de nenhuma vez que a Hye tenha te negado ajuda. Vocês estavam sempre andando para baixo e para cima juntos. O que que será que mudou agora? — minha pergunta era retórica, eu sabia muito bem o que havia mudado. Tudo que eu queria era saber o que ele diria. Qual era a sua justificativa? O que dizia para si mesmo para conseguir dormir à noite?

Matthew se encostou na parede ao lado da televisão, de frente para mim. Coçou a nuca, parecendo muito desconfortável. Deveria saber o que eu estava fazendo porque também me conhecia, mas deixou-se cair na teia que armei para ele.

— Eu amo minha irmã — ele disse. — Mas não concordo com essa... Coisa... Da vida que ela escolheu.

Pisquei repeti duas vezes para assimilar as palavras que ele disse.

— Escolhas? — repeti.

Ele continuava falando como se não tivesse me escutado balbuciar a palavra em choque.

— Não me incomoda que ela seja, sabe, isso... Mas precisava se exibir assim? Pra todo mundo ver?[6] 

Fechei meus olhos com força, sem querer acreditar nas palavras que estava ouvindo saírem da boca de Matt. Meu coração ficou pequenininho, de decepção com meu amigo, mas também da falta de apoio familiar que minha amiga teria. Ele era minha única esperança.

Respirei fundo e tentei controlar meu comportamento para ter argumentos para rebater. De nada adiantaria começar a gritar ou jogar coisas. Eu precisava ser sensata.

Eu precisava ser a voz da razão. Por Hye.

Peguei meu celular, desbloqueei a tela e logo encontrei o perfil de Matthew, porque ele estava sempre entre os meus favoritos. Procurei uma foto postada na semana anterior e virei o celular para ele.

— Essa é a Pamela Stevenson? — perguntei, mesmo que não tivesse dúvida alguma. — Ela é muito bonita. Vocês estão saindo? Devem estar, já que você está com a mão na bunda dela... — Levantei-me, virando o celular de volta para mim. — Deixe eu voltar um tempo... Ah, aqui está! Olhe só. — Virei o celular pra ele, que me encarava, lívido, já entendendo o meu ponto. — Essa sou eu. Qual o seu problema com bundas, aliás? Ah, olha só o que eu achei aqui! Amor é amor — Dessa vez, quase bati com o celular no nariz dele ao lhe mostrar sua própria postagem. — Quando você postou isso, hein? No dia do orgulho LGBTQIA+ do ano passado? Você é hipócrita, Matt! Esperava mais de você. Ainda bem que a Hye tem a gente pra cuidar dela agora que a mídia inteira está sendo cruel e falando as maiores atrocidades... Você já leu o que estão dizendo dela? Porque eu não recomendo. Mas, ah, é. Você também está dizendo coisas horríveis, não é? Ou não está dizendo nada?[7]  Às vezes é o silêncio que mais machuca. — suspirei. — Eu não vou nem te desejar uma boa noite porque não acho que você mereça. Adeus, Matt.

Sem aguardar por discussões ou por desculpas, fui embora, deixando-o congelado na parede do seu quarto de hotel.

***

As coisas começaram a tomar forma depois de muito trabalho e muito esforço na nossa cortina de fumaça para proteger Hyelin. Na noite que voltei do hotel de Matt, Christopher ficou levemente descontrolado. Em seu ciúme, mesmo na confiança me ofereceu, não me permitiu dormir nem por um segundo naquela noite e demos trabalho para minha maquiadora por uma semana inteira. Aos poucos, as coisas foram voltando ao normal e Hye voltou a se sentir menos desconfortável com as entrevistas e, quando entramos em turnê, já parecia quase feliz outra vez; e muito se devia ao fato de que ela estava viajando com Emília.

Pela primeira vez, não estava tão animada com uma turnê. Gostava dos shows, do público, dos sentimentos e da emoção. Gostava do meu trabalho gostava de me apresentar, mas estava morrendo de saudade de Christopher.

Eu não era a única. Enquanto o Hye era apenas sorrisos e músicas cantaroladas em todos os corredores por onde nós passávamos, Alika parecia muito emburrada e infeliz. Todas as vezes que tentei lhe arrancar alguma informação, ela apenas me dizia que estava com problemas em casa e não entrava em detalhes.

Descobri apenas quando Emília decidiu que não aguentava mais um monte de mulher na TPM, carente e emburrada pelos corredores e permitiu que, se fosse possível, recebêssemos visitas na turnê. Christopher chegou no segundo que foi liberado e trouxe fofocas fresquinhas de Alex, que o acompanhava, parecendo um pouco mais maltrapilho do que de costume. Mark estava atrasado, mas chegaria em seu jatinho particular, então Hope não parecia muito preocupada.

Depois de corremos para o quarto de hotel e matarmos a saudade, enrolados nos lençóis e abraçados, ele me contou o que sabia.

— Alex voltou a beber.

— Voltou? — Indaguei, impressionada.

— Ah... Você não estava aqui da primeira vez — soprou. Beijou minha têmpora e me apertou um pouco mais em seu abraço, como se não quisesse me deixar fugir. — Ele teve um problema sério com bebidas há alguns anos. Chegou no fundo do poço mesmo. Até tentou se matar.

— Meu Deus? — Minha voz aumentou e ficou mais fina com meu pequeno ataque de pânico.

— A gente internou ele e ele ficou bem, mas sei lá, tem umas duas semanas que ele voltou a beber e tá bebendo muito. Michael está super preocupado.

— Michael está sempre preocupado com alguma coisa — declarei.

— Isso é verdade. Pelo menos ele parou de pegar um pouco no meu pé — Olhei-o de rabo de olho, julgando-o por comemorar uma pequena vitória em detrimento da saúde de seu amigo. — Ah, é um "pelo menos", não um "que bom".

Fiz careta mesmo assim. Chris mordeu meu nariz e lhe dei alguns tapinhas de brincadeira. Entre todos e beijinhos, não consegui relaxar, deixando minhas sobrancelhas franzidas por tempo suficiente para ganhar uma massagem de polegar na região.

— Você é igualzinha ao seu irmão — riu. — Está sempre preocupada.

— Será que você está reprimindo seu amor homossexual pelo meu irmão e projetando em mim? — Brinquei, tentando disfarçar.

Foi na sua boca, na sua língua e na ponta dos seus dedos em meu sexo que ele me demonstrou o quanto eu estava errada.

— Boba — disse, os lábios roçando nos meus, encarando minha expressão mole de alívio. — Pra mim, só tem você.

Queria continuar relaxada, dizer juras de amor para Christopher e planos para nosso futuro juntos, mas minha cabeça ainda estava presa no drama de Alika e Alex.

— O que você acha que aconteceu pra ele voltar a beber? — perguntei.

Chris riu, revirou os olhos e jogou o corpo para trás, saindo de cima de mim. Respirou fundo e sua expressão ficou séria porque, eu sabia, a bebedeira de Alex já devia estar tirando o seu sono há alguns dias.

— Olha, se você quer mesmo saber... — ele soprou o ar. — Não fui eu que te contei, tá? É aquele lance de segredo de casais, lembra? — Concordei com a cabeça, vidrada. Ele apertou os lábios em uma fina linha, como se ainda estivesse decidindo se deveria me contar ou não. — Você lembra da Anna?

— Aquela moça que ele namorou antes da Aly? De cabelo curtinho?

— Isso. Ela — concordou. Torceu o nariz em desagrado. — Olha, eu não sei se foi isso, mas foi logo depois que ele ficou sabendo que voltou a beber...

— Sabendo o quê? Fala, não faz mistério.

Ele riu e mordeu meu nariz mais uma vez, só que de leve, quase como um carinho.

— Ela anunciou que está grávida e que vai casar e, sei lá, já tentei conversar com ele, mas ele...

— Ele sempre foi muito reservado, né? — completei.

— É... — Christopher concordou.

Namoramos um pouco mais naquela noite e Chris acabou dormindo, quase desmaiado de cansaço da viagem de meio mundo e depois de uma maratona de sexo, mas eu continuei desperta, pensando em Alex e Alika e no porquê Alex estaria tão preocupado com a gravidez de Anna se ele terminou com ela porque começou a gostar da minha amiga.

Capítulo 5

Anel de Humor

Agora todos os meus oceanos têm correntezas
Não consigo encontrar o que há de errado
O mundo inteiro está me decepcionando
Você não acha que o início dos anos 2000 parece tão distante?

Nossos namorados permaneceram conosco na turnê durante uma semana, viajando para três localidades diferentes. Christopher e Mark e ainda tentaram bolar um plano para ficar por mais tempo, enquanto o Alex parecia não se aguentar de vontade de ir embora. Precisaram ir, os três, nos deixando para mais dois meses longos de shows, entrevistas, fotos e vídeos.

Encurralei Alika assim que eles foram embora.

— Me deixa te ajudar — implorei, em português. — Eu sou sua amiga quero saber o que está acontecendo. Tô aqui contigo, cara.

Ela me encarou com seus grandes olhos escuros cheios de mágoas e dores. Demorou um tempo até decidir se deveria me contar o que passava ou não. Por sorte ou amizade, acenou com a cabeça de cima para baixo apenas uma vez.

— É o Alex — desabafou. — Ele está tão esquisito... Andou falando um papo sobre família sobre querer ter filhos e depois que eu disse para ele que agora era uma hora ruim por causa, sabe, da nossa carreira e eu e ele também não temos tanto tempo assim de namoro para pensarmos em filhos... — ela se jogou sobre a sua cama no quarto de hotel no meio dos Estados Unidos. — E agora ele deu pra beber. Eu ligo para ele e ele está bêbado. Meu pai falou que ele foi lá em casa brincar com o Kayin e encontrou Ales bêbado e sujo...

As coisas faziam mais sentido que a gravidez de Anna ter causado todo aquele estrago. Com a resposta de Aly, dava para perceber que ele queria ser pai e que estaria realizando seu desejo com Anna, mas queria que fosse com Alika e ela não estava pronta para ser (de novo). E aí ele entrou em um rodamoinho de autodestruição ao invés de conversar sobre isso. Era típico dele. Era típico meu também.

Alex e eu sempre fomos almas estranhas e parecidas.

— Aly, eu sinto muito — abracei-a. Acabei contando pra ela o que Chris me contou, sobre não ser a primeira vez de Alex bebendo. — A turnê tem mais dois meses pela frente, então vamos ter um tempo e você pode ajudar o Alex. Só precisa dar um jeito de controlar ele até lá. Eu tenho uma ideia.

Minha ideia era dizer a Alex que ela pensaria sobre ter um bebê ainda no próximo ano caso ele parasse de beber e surtiu algum efeito. Ela pelo menos pareceu aliviada durante os dois últimos meses de tuernê, que passaram como uma tartaruga sonolenta.

Estar de volta em casa foi um alívio durante os primeiros dias e, assim que meu corpo conseguiu relaxar, percebi que sentia falta do trabalho, sentia falta de cantar, de dançar, de conversar com as pessoas que gostavam da minha música. Christopher apenas ria da minha cara porque já havia percebido a mesma coisa há anos. Era muito trabalho, era cansativo, mas eu amava.

Lá estava ele, meu namorado, de volta a minha casa, como se fosse sua. Curtindo as minhas férias grudado aos meus tornozelo, dando beijinhos em cada pedaço de pele exposta do meu corpo. Comecei a me perguntar se nossa lua de mel nunca acabaria e eu preferia que continuasse assim.

Durante nossa pausa para descansar, a rotina começou a retornar pouco a pouco. Nós acordávamos, tomávamos café da manhã juntos, ele ia para academia, passava em sua casa para pegar alguma coisa, às vezes trazia almoço. Eu compunha, fazia alguns vídeos de dança ou canto, ligava para minhas amigas, minha tia ou meus irmãos. Assistíamos programas criminais juntos. E às quintas, nossa casa era invadida por nossos vizinhos mais queridos, Dave e Chelsy, com risadas, brincadeiras e conversas acaloradas.

A vida era boa, gentil. Eu quase me esquecia dos problemas. Quase.

Dave e Chris estavam gritando na sala em um jogo de futebol no videogame, um que desisti de tentar depois de perder de forma humilhante algumas vezes.

Na varanda dos fundos, acompanhada de uma garrafa de espumante e Chelsea, nós brindávamos ao nada e colocávamos o papo em dia. Houveram alguns causos na vizinhança que perdi durante a turnê e ela fazia questão de me contar um por um. As quintas eram um dos dias favoritos da minha semana; adorava nossas noites de jogos e bebidas, aquela descontraída de ficar com seus amigos mais queridos.

— E a Karen, aquela doida cheia de filho que fala engraçado, sabe quem é? — Chelsy me perguntou, mas mal esperou que eu concordasse para continuar. — Então, o mais velho dela é uma complicação. Dave adora o garoto, deu um patinete pra ele mês passado, agora ele passa na rua toda tacando bola de papel de cuspe nas janelas com uma zarabatana, menos lá em casa.

— Ai, meu Deus, era isso, então? — Apesar da sujeira, soltei uma gargalhada alta porque adorava criança arteira. — Vou ter que arrumar um jeito de subornar esse garoto também.

— É só você fazer esse negócio aí de chocolate, tenho certeza — Chelsy riu. — Eu já teria pedido pra você me ensinar, mas se essa receita entra na minha casa, meu marido vai virar um balão. Ele só fala disso. Será que a Tish vai fazer ... Brygarderro na quinta? Fala pra ela fazer, por favor. É sério. Você suborna qualquer um com isso.

— Já sei como vou conseguir minha habilitação permanente, então — brinquei.

Meu telefone começou a tocar e foi só uma olhada no visor para o meu sorriso se desmanchar.

— Preciso atender — avisei à Chelsy, que concordou com a cabeça. — Oi, Aly.

"Tish, pelo amor de Deus, preciso de ajuda"

— O que foi? — levantei-me, alerta. Chelsy franziu a testa, deu uma golada final de sua taça e levantou-se comigo.

"Por favor, você pode vir aqui?" ela parecia estar chorando, suas palavras rápidas em português estavam quebradas e vazias. "É o Alex, eu não sei ... Por favor".

— Tudo bem, fica calma — disse, em português, antes de virar a chave para o inglês em um estalo. — Eu já estou indo. Fica calma.

Desliguei o telefone e levantei o olhar para Chelsea, ensaiando um pedido de desculpas mentalmente, mas ela apenas acenou com as mãos e sorriu, negando com a cabeça.

— Pode ir, não tem problema — alegou, entendendo qual era o problema.

Estávamos todos preocupados. Alika vivia trancada com Alex em casa e nenhum dos dois saía para nada. Vínhamos nos revezando para levar-lhes suprimentos para que ele não ficasse sozinho nem por um segundo. Como um furacão, chegamos à sala, onde Dave e Chris continuavam gritando um com o outro.

— A gente precisa ir na Aly — anunciei.

— O que? Agora? — Chris nem pausou o jogo, mas franziu as sobrancelhas, prestando atenção no que eu dizia. Dave lhe roubou a bola naquele momento e ele, de raiva, pausou o jogo.

— Ela ligou, pediu ajuda — expliquei. — Desculpa, Dave. Eu ainda tô com a habilitação provisória e eu bebi um pouco também.

Passei na prova para a habilitação provisória há um pouco mais de uma semana, depois de Hope insistir que eu precisava, mas só poderia dirigir com alguém habilitado no carro por um tempo, antes de fazer a segunda prova.

Chris concordou e vi uma preocupação em seu rosto. Despedimos de Chelsy e Dave já do lado de fora, cada um indo para seus carros, Dave agarrado com uma travessa de brigadeiro de panela, lambendo seus dedos.

— Ela disse alguma coisa? — Chris pediu-me, ligando o carro.

— Não, só pediu ajuda. — abracei-me ao cinto de segurança, nervosa.

Alika estava morando com Alex há algum tempo. Kayin costumava ficar com eles, mas, desde que ele voltara a beber, o pequeno estava em casa com o avô e ela se mudou para a casa de Alex, tentando minimizar o contato dos dois, mesmo que Kayin sentisse saudades do amigo.

Ela destrancou a porta assim que chegamos e me abraçou com força. Suas bochechas marrons estavam molhadas das lágrimas que escorriam de seus olhos grandes, fazendo seus grossos cílios brilharem um pouco mais à luz da Lua.

— Eu não sei mais o que fazer — disse, baixinho. — Nós não saímos. Eu fui tomar banho e, quando voltei, ele estava completamente bêbado. Não sei como ele arrumou bebida, já revirei a casa toda — cada palavra se partia com um soluço. — Ele quebrou uma garrafa e ficou violento. Saiu de casa, e Tish... Ele pegou o carro. Fiquei desesperada. Me ligaram da escola do Kayin dizendo que ele foi lá buscar ele. Não deixarem ele pegar, mas Kayin viu tudo, está arrasado e eu perdi Alex pelo resto do dia... Agora ele tá trancado no quarto e eu não sei, não sei se consigo mais fazer isso – e seu choro ficou ainda mais alto e desesperado.

— Tô aqui agora — apertei-a ainda mais em meu abraço e traduzi suas palavras para Christopher, que acenou com a cabeça.

— Eu cuido dele — anunciou. — Você cuida dela e tenta dar um jeito de descobrir onde ele escondeu as bebidas. Vou tentar fazer ele dizer também, se vocês não conseguirem encontrar.

Se tinha uma coisa que havia aprendido com os ingleses era que muita coisa se resolvia com uma xícara de chá e essa foi minha primeira medida para acalmar Alika. Assim que conversamos e que ela conseguiu desabafar um pouco, ouvimos Christopher levar Alex para o chuveiro e procuramos em toda a casa, até entrarmos no quarto de hóspedes. Debaixo da cama, em um assoalho falso que ela não conhecia, encontramos quase dez garrafas de bebidas variadas.

Achava que nunca tinha visto Alika tão acabada como naquela noite.

***

— Lica! — acordei com o grito de Alex. No susto, nem me preocupei com a privacidade alheia, sentei-me imediatamente no sofá onde adormeci. Christopher estava sendo muito mais educado, dormiu sentado na poltrona e abriu um olho de lado para descobrir o que estava acontecendo. — Lica, por favor, não vai embora.

Alika estava com uma bolsa atravessada em seu peito, parada à porta com a mão na maçaneta. Alex tinha as mãos juntas numa posição de subserviência, implorando que ela não fosse embora.

— Você podia ter machucado meu filho — ela disse. — Eu tenho estado com você esse tempo todo, sem entender o que aconteceu. Te apoiei, tentei te ajudar a superar essa fase, mas você passou de todos os limites. Não posso mais aceitar essa situação, não posso mais te deixar chegar perto do Kay e não aguento mais, Alex. Não aguento mais assistir você se matando. Eu sinto muito. Eu te amo, mas não consigo.

Com essas palavras, ela foi embora e Alex caiu de joelhos no chão, chorando copiosamente.

Ficamos com Alex até o meio da tarde, quando Michael apareceu para levá-lo pra casa dele.

Chris o levou para o carro arrastado, enquanto eu e Mike ficamos encarregados de levar as coisas dele.

— Você limpou a casa? Não tem bebida nenhuma? — Indaguei.

— Já não costuma ter — ele riu. — Gabi tá amamentando, não vou beber sem ela.

— E você vai me avisar se ele precisar de alguma coisa?

— No mesmo segundo — prometeu.

Ajudamos Alex a se instalar no quarto de hóspedes da casa do meu irmão e fomos para casa. E eu não conseguia mais relaxar. Toda vez que o celular tocava, eu dava um pulo, alerta. Conversava com Alika todo dia, tentando ser imparcial e talvez gerenciar um perdão, se houvesse a oportunidade.

Chris também estava além da tensão e ficou ainda mais nervoso quando Michael nos disse que Alex ficaria alguns dias com a mãe, para matar as saudades da família.

— Mas é a família dele — tentei acalmá-lo.

— São relapsos — disse. — Seu irmão confia demais na boa vontade das pessoas. Da outra vez, a gente deixou ele ficar com a família porque iam cuidar dele e foi quando ele sumiu e tentou se matar.

Tentei relaxar, mas os dias em que Alex passou com sua família foram gastos esperando uma ligação ruim. Quase fui eu mesma buscá-lo para instalar em um dos meus quartos extras. Daria trabalho jogar fora todas as minhas bebidas, mas...

Havia um plano sendo formado em minha cabeça quando a ligação finalmente chegou.

Estávamos na cama, Chris e eu. Era uma noite de domingo e Thomp tinha começado a me perseguir para agendar as primeiras gravações em estúdio de músicas que não compuséramos ainda, então estávamos matando a saudade que começaria a nós perseguir assim que eu voltasse ao trabalho.

O meu telefone tocou primeiro. Ignorei porque tive certeza que era Thomp outra vez ou uma das meninas perguntando sobre qualquer composição pronta. Parou de tocar e, logo a seguir, o de Chris começou.

Descolamos as bocas e nos olhamos por um segundo, como medo do que poderia ser.

Ele atendeu e colocou no viva voz.

"Estou no hospital com o Alex" meu irmão anunciou, sem dar voltas.

— Puta merda, cara, onde vocês tão? O que houve?

Christopher já estava de pé, colocando suas roupas. Eu fiz que ia me levantar, mas ele pediu calma.

"No St. Mary. Ele saiu da mãe dizendo que ia voltar pra minha casa. Pegou o carro há horas, bebeu em algum pub e tentou voltar, mas... Bateu com o carro".

Não segurei a expressão.

— Ele tá bem? — perguntei, nervosa.

"Todo quebrado, mas é... Podia ser bem pior. O carro já era, perda total, mas ele..."

— A gente vai fazer isso de novo, então? — Chris indagou.

"É. Não tem jeito".

— Vou pegar o Dave no caminho. A gente já chega aí — eles se despediram e desligaram. Chris me deu um beijo leve na boca. — Vamos internar ele de novo. Já estávamos conversando sobre isso. Essa é uma daquelas coisas que a gente tem que fazer junto, sabe... Fica aqui, tá? Eu te aviso.

Concordei com a cabeça e deixei-o ir com um aperto em minha garganta.

***

Acordei sozinha no dia seguinte, Chris ainda estava no hospital com Alex, esperando ele receber alta para que pudessem interná-lo de novo. Ele estava bem, acordado e falando e as mensagens de Chris eram positivas, dizendo que Alex estava arrependido e queria melhorar. Já era o primeiro passo.

Quando mudei de conversa, percebi que nem tudo eram boas notícias.

Hope me enviara vários trechos de comentários e matérias.

"Quem essa vaca pensa que é? Olha o que ela fez com ele!", "Tomara que essa nojenta morra, tadinho do Alex" e vários outros.

As redes sociais de Alika estavam abarrotadas de xingamentos das fãs da DeLorean.

— Vim assim que soube — disse para Alika, após dirigir até sua casa sozinha, rezando para todos os santos para não ser pega.

Ela riu, mesmo com a cara inchada de tanto chorar.

— Você não foi a primeira a chegar.

Em sua sala, Piper e Hope já estavam fazendo degustação de biscoitinhos caseiros preparados pelo pai de Alika.

Segurei sua mão antes de entrarmos.

— Ele vai ficar bem — garanti-lhe. Ela apenas acenou em agradecimento.

— Ah, ela chegou — Piper gritou. Abraçou-me, espalhafatosa e me olhou com seus grandes olhos azuis arregalados. — Diz pra ela contar o que Alex fez. Que ele já tava assim antes do término e tal. Ela só escuta você.

Sorri amarelo e olhei para Alika. Ela apenas acenou negativamente com a cabeça, me informando que eu nem precisava me dar o trabalho.

— Ele não precisa de mais coisa na cabeça, eu acho — disse. E, nos vincos debaixo dos seus olhos, vi o quanto ela estava se culpando, o que só aumentava com as mensagens que recebia. — Eu posso segurar essa. É sério, está tudo bem. Não precisam ficar me rodeando.

Apesar de suas reclamações, Hye chegou um pouco antes do meio-dia, trazendo a única boa notícia do dia.

— Me desculpa, me desculpa — implorou, ao notar que estávamos todas lá, menos ela. — Eu... Eu estava tomando café da manhã com Matthew. A gente conversou e tal. Não podia... Perder a chance. Mas você sabe que eu te amo, não sabe? — perguntou a Alika. — Aposto que mais do que essas daí.

— Ah, não, mesmo! — Hope gritou.

Depois de algumas pequenas brigas, as quais venci reclamando a posse do amor de Alika para mim, resolvemos aproveitar o dia para conversarmos sobre o próximo álbum, com apontamentos importantes de Kayin, assim que chegou da escola e se juntou a nós.

Capítulo 6

Tratar você melhor

Eu não vou mentir para você
Eu sei que ele não é o certo para você
E você pode me dizer se eu estiver enganado
Mas eu vejo isso em seu rosto

— É hoje o grande dia? — Christopher perguntou, ao entrar no meu quarto.

Eu estava sentada no chão, rodeada por três caixas diferentes, uma era a que meu tio fez para mim antes de morrer, todas abarrotada de com músicas e composições que eu acumulei através dos anos, desde a minha adolescência.

— Oi — estiquei meu pescoço oferecendo minha boca para ganhar um beijinho rápido. Christopher fez uma viagem rápida para casa de sua irmã, que estava se divorciando e houve algum problema elétrico na casa que a estava deixando a flor da pele, então Chris, que estava em férias eternas, já que meu irmão continuava babando em sua cria e Alex estava internado, resolveu ir para ajudá-la a lidar com a pequena reforma. — Não é nada ainda. Só vamos começar a conversar sobre o próximo álbum. Tô aqui tentando encontrar um tesouro.

Ele riu e sentou-se à beira da cama que estávamos dividindo nos últimos meses.

— Essas são as antigas, é? — perguntou, a brincadeira dançando em suas palavras. — Devo ficar lisonjeado ou preocupado?

— Ambos, eu acho — ri. Porque era muito verdade. Muitas das minhas composições falavam dos meus sentimentos por Christopher, tanto de quando estávamos juntos e eu ainda era uma jovem menina e quando nós terminamos e eu era uma mulher quebrada perdida em um país que eu tentava entender para poder entender a mim mesma também. Ainda haviam algumas desde o meu retorno e outras um pouco mais recentes da confusão que resultou em nosso relacionamento atual.

— Não vai nem dar pra dar uma namoradinha? — perguntou, fazendo bico.

— Não, tenho que ir daqui a pouco — fiz bico de volta. — Tentei fazer a reunião ser aqui, mas Hope quer que a gente conheça a casa dela. A próxima vai ser na casa da Piper. Ela perdeu no pedra, papel e tesoura.

Ele riu baixinho, mas franziu as sobrancelhas e olhei em sua direção, estranhando. Conhecia Christopher o suficiente para saber que ele estava desconfortável com alguma coisa, então meneei a cabeça e esperei.

— Eu tenho uma notícia — disse, quase envergonhado de ter atraído tanta atenção.

— Uma notícia? É sobre o Alex? Ele está bem?

Seus lábios se moveram para cima aumentando suas bochechas e quase desaparecendo com seus olhos e isso já me deixava relaxar um pouco porque me dizia que a notícia não era ruim.

— Não, não é sobre o Alex — respondeu. — Mas eu falei com a clínica ontem. Ele ainda não pode ter contato externo, mas me garantiram que ele está muito bem e que ele está indo bem no tratamento.

Respirei aliviada. Estava pensando em eu mesma ligar para clínica, mas não queria ser enxerida e me segurei. Cheguei a perguntar para Michael, mas ele foi vago. Estava em um próprio drama pessoal com um bebê com dentinhos nascendo.

— Ai, que bom! — recostei me em suas pernas, apoiando minha cabeça em seu joelho e o olhando de cabeça para baixo. — Quando ele sair, se você quiser que ele fique com a gente aqui em casa, ele pode ficar, tá? Vou adorar dele aqui, a gente arruma um quartinho para ele e cuida dele porque meu irmão é um banana e a gente já viu que deu merda. Então a gente pode ficar de olho nele.

O sorriso de Christopher se alargou e ele me deu um beijo um pouco mais generoso naquela posição estranha.

— Aqui em casa, é? — perguntou.

— É, né? — respondi. — Acho que a gente já tá morando junto há algum tempo, só não oficializamos. Tô até pensando em abrir um pedaço do closet pra você. Eu gosto da ideia de você ter uma casa pra, sabe, quando eu enjoar de olhar pra sua cara ou pra você não bagunçar tudo quando eu estiver em turnê, mas... Acho que é isso. É.

Ganhei mais alguns beijos.

— Vou gostar de ter um pedaço do closet — respondeu, apenas.

Porque era isso que faltava, só. As palavras. Chris e eu tínhamos um longo histórico de não-dizer. E só o dizer já resolvia a maior parte dos problemas.

Voltei a atenção às minhas letras, vendo o relógio me avisar que meu tempo estava acabando. Comecei a juntar as pilhas com clipes de papel colorido e virei-me para Christopher, a sobrancelha franzida. Ele estava deitado na cama, o controle da televisão na mão, passando rapidamente entre as opções de filmes para assistir, sem demonstrar interesse em nada.

— E a notícia? — perguntei, notando que ele não me disse.

Ele abandonou o ar, desinteressado.

— Não é nada — respondeu, sem nem olhar para mim.— quando você voltar a gente conversa.

Fechei a cara. Respirei fundo e, em um pulo, joguei-me sobre ele, um pé de cada lado de seu corpo, quadril muito bem encaixado sobre sua pélvis. Comecei a escorregar as minhas mãos da altura do seu umbigo em direção aos seus ombros e ele cerrou os olhos para mim.

— Me conta, vai? — pedi. E só para reforçar o meu charme, deixei meu quadril se mover levemente, de forma quase imperceptível.

Pela forma com que suas narinas inflaram, soube que ele percebeu tudo.

Sua mão grande e calejada, das milhares de horas que passou tocando bateria, encaixou em minha coxa, bem abaixo da minha bunda, e não demonstrou pudor algum em apertar minha carne.

— Eu já te disse que você é muito gostosa? — perguntou.

— Tenho escutado bastante isso — respondi, brincando.

Ele não estava brincando mais e minha boca foi atacada com desejo e saudade. Menos acesa que ele, ondulei ao seu redor, desacelerando o beijo até o carinho.

— Me conta — pedi, minhas mãos bem posicionadas, uma em cada lado do seu rosto. — Por favor.

Ele tinha empurrado seu corpo para frente e se sentou comigo em seu colo. Abraçou-me, o lábio deslizando pelo meu rosto para me provocar, em direção a minha orelha. Segurei a respiração e comecei uma contagem para não perder a cabeça e a reunião da minha banda.

— Chuta só quem vai ser jurado da nova temporada do StarHunt?

Demorei pra assimilar as palavras, mas, quando o fiz, soltei um grito: — O quê?

Ele estava rindo, feliz da vida, orgulhoso do seu trabalho. Comecei a dar beijinhos em todo seu rosto, dizendo o quanto ele era incrível e quanto seria maravilhoso no programa.

— Foi de última hora — contou-me. — Me chamaram tem dois dias. Parece que pegaram Kevin em algum escândalo sexual e não queriam ele envolvido mais com programa, então pensaram em mim e eu pensei: bom, já que a DeLorean tá parada, e já que vai ser um trabalho de só alguns meses e o cachê é muito bom, por que não? Você não está chateada? Achei que ia ficar chateada por eu não ter te perguntado nada antes de dizer sim.

— É claro que eu não tô chateada! Você vai ser incrível! — comemorei. — Mas sabe o que eu tô? Atrasada. Quase. Preciso ir. Mas de noite a gente comemora, tá? A gente pode sair pra jantar. Ou encomendar um jantar. Vamos fazer algo bem legal, tá? Desculpa ir correndo assim. Te amo.

Ele riu e pediu só mais um beijo demorado antes de me soltar da prisão de seus braços, de onde eu não queria fugir nunca mais.

— Também te amo.

Esse foi o meu último segundo de paz antes de tudo virar de cabeça para baixo novamente. Bem quando os ataques contra a Alika estavam começando a diminuir.

Tivemos uma boa reunião, até. Com nossos celulares acumulados em um cantinho da sala de Hope, não vimos a bomba que estava estourando em nossas mãos até que ela estivesse em proporções gigantescas. Cheguei a entrar no carro com Alika e dirigimos em direção à minha casa por cerca de dez minutos. Eu estava até trocando mensagens com Christopher enquanto ela falava um pouco sobre como estava tentando superar Alex e como Kayin estava lidando com tudo como um garoto crescido de quase dez anos.

Foi Chris que me ligou.

"Você está com a sua irmã?" Perguntou.

— Já estou indo pra casa — eu ri, achando que era brincadeira. — Se prepara pra gente comemorar.

"Não, Tish, tudo bem. A gente comemora depois. Volta pra sua irmã e liga pro seu irmão”.

Não entendi o que estava acontecendo e porque eu precisaria estar com Hope e levar Michael comigo. Não tinha visto nenhuma rede social, nenhuma notícia.

"Chris?" Estranhei. "Chris, o que está acontecendo?"

Ele quase não conseguiu me dizer. E eu quase não consegui assimilar.

Mark Hopkins vazou um vídeo íntimo de Hope.

Capítulo 7

Titânio

Sou criticada, mas suas balas ricocheteiam
Você me derruba, mas eu levanto
Sou à prova de balas, nada a perder
Atire, atire
Ricocheteiam, você acerta o alvo
Atire, atire
Você me derruba, mas eu não cairei
Sou de titânio

— Como ela está? — Michael chegou o mais rápido que pôde e me deu um abraço rápido. Precisou esperar a mãe de Gabi chegar para ajudar com Andy, que estava febril, antes de sair.

Tia Liah já ligou cinco vezes. Tinha ganhado uma viagem ao Caribe nossa de aniversário com o novo namorado e era o único motivo pelo qual a porta do quarto de Hope ainda estava de pé.

— Não quer sair do quarto, não quer falar comigo. Talvez você...

Eu normalmente respondia ao Michael. Ele me fazia acreditar que eu estava segura e torcia para que fosse o mesmo com Hope.

Ele me encarou nos olhos, a preocupação ardendo em cada nuance do tom avelã. Parecia prestes a chorar, eu bem sabia que eu estava.

— Você assistiu? — perguntou. Desviei o olhar, envergonhada, e concordei com a cabeça. — É muito ruim?

— Qualquer um seria ruim, Mike — respondi, ainda sem olhar para ele. Mordi a parte interna da boca, desconfortável. — Mas é ruim.

Ele apertou os olhos e esfregou o indicador e o polegar em cima deles, buscando se acalmar.

— Nunca gostei desse desgraçado — disse. E não era novidade. Michael nunca gostava de ninguém que estava com a gente. — Eu disse pra ela sossegar, ficar na dela, mas aí ela arrumou esse... Esse desgraçado que filmou ela pra...

Agarrei seu pulso.

— A culpa não é dela — alertei-o. — Ela estava apaixonada e confiou. A culpa é dele que se aproveitou disso. Se você se atrever a dar uma bronca em Hope, eu mesma te chuto dessa casa e não se atreva a duvidar da minha capacidade.

Michael ainda se surpreendia quando eu o deixava ver toda a força que tinha dentro de mim. Ao invés de ficar zangado com minhas palavras, arregalou os olhos por três segundos, antes de aliviar a expressão e sorrir.

Com uma força conjunta, conseguimos convencer Hope a abrir a porta do seu quarto. Ela não conseguia parar de chorar, então administrei um calmante leve para ela e dormimos os três agarrados, como quando fazemos quando  éramos crianças. Minha irmã parecia partida em dez mil pedaços pequenos e não importava o quanto eu lhe dissesse que toda a nossa equipe estava trabalhando em excluir qualquer imagem de sua intimidade, a vergonha tomou todo o seu ser e quase apagou sua chama de vivacidade.

Michael precisou nos deixar de manhã para levar Andy em uma consulta médica e nos enviou mensagens desesperadas dizendo que a frente da casa estava tomada de repórteres e fotógrafos. Fechei todas as cortinas.

Hope estava em volta de uma coberta, mesmo que não estivesse frio. Tomava um chá quentinho de camomila, para acalmar seus nervos e tentar fazê-la ter um dia melhor do que o anterior.

Assim que conseguir nos dar um pouco mais privacidade, apesar dos zumzumzum de abelhas fofoqueiras do lado de fora de casa, sentei-me ao seu lado. Ela bebericava seu chá lentamente, soprando e degustando como se nada mais no mundo fosse digno de sua atenção.

— Todo mundo já viu tudo o que eu tenho — disse, por fim. — O que mais eles querem tirar de mim? Não posso nem curtir minha humilhação com um pouco de privacidade?

Já estava cansada de rebater seus comentários autodepreciativos naquela altura do campeonato. Hope sempre foi uma pessoa um pouco mais sarcástica, mais bruta com as palavras e não era diferente consigo mesma. A sorte é que ela era minha irmã, eu a amava e sabia como me comunicar com ela.

Hope não queria que eu a validasse, que a elogiasse ou protegesse de si mesma. Ela queria ajuda com seu outro problema, o que ela apontava claramente ali.

— Sei onde a gente consegue privacidade — disse.

Ela virou-se imediatamente para mim, como se fosse o anúncio da cura de todas as doenças do mundo.

— Onde?

Abri um sorriso porque, só de pensar, me trazia felicidade e paz de espírito.

— Na casa da areia.

Ela arregalou os olhos por um momento e depois acenou com a cabeça. Foi tudo o que precisei para começar a mexer os pauzinhos para levá-la para a segurança do meu mundo.

***

Minha comemoração com Christopher precisou ser breve. Quinze minutos debaixo do chuveiro, o que não era tão incomum, enquanto Hope aguardava na sala, achando que ele estava me ajudando a escolher as roupas que eu queria levar em minha mala.

Ou minha irmã foi apenas gentil em fingir que acreditava nas minhas palavras.

Fomos sem nenhum alarde. Foi uma fuga rápida e desesperada, com poucas mensagens enviadas para avisar. Pegamos o jatinho da banda logo ao fim do dia e chegamos ao rio de janeiro ao nascer do sol, para subir em um helicóptero e chegar na casa da areia, minha casa em uma pequena ilha particular em Angra dos Reis.

Eu não aproveitava tanto aquela casa quanto deveria. Christopher nunca foi até lá, nem meu irmão. Hope e as meninas já conheceram, entre turnês e viagens, passamos algumas vezes por lá, mas nunca tempo o suficiente. Era a primeira vez que chegamos à casa sem data de saída.

Foi complicado no começo. Hope estava além de qualquer ajuda. Apesar de estarmos em total privacidade e isso ter acalmado seua ânimos, ela ainda estava se sentindo completamente humilhada e haviam muitos problemas para serem resolvidos.

Uma investigação foi aberta após Michael e Thomp abrirem queixa em nome de Hope e nossos planos para começar a pensar no álbum precisaram ser adiados.

Ela passava a maior parte do dia na piscina, sempre acompanhada de seu celular ou de seu computador, vigiando todas as notícias e comentários que faziam sobre ela, procurando todas as coisas ruins e tudo mais que a pudesse deixar para baixo.

Eu já não sabia mais o que fazer.

"Queria estar aí com você, ajudando sua irmã" Chris reclamou, enquanto eu narrava os últimos acontecimentos. Hope permanecia na piscina, enquanto eu, da sala de casa, a olhava em mais uma busca investigativa em seu celular. Na cozinha, dona Marta estava preparando uma refeição e eu ouvia o bater de panelas e o cheiro incrível da comida. Ela e o marido eram os meus caseiros e viviam em uma casa menor na mesma ilha, fazendo a manutenção da casa e tudo mais que se precisasse.

— Não sei se você seria de muita ajuda — resmunguei. — Eu não estou sendo. Eu não tenho certeza que ela quer sair dessa e não sei como ajudar ela também — dei de ombros. — E você está sendo brilhante no StarHunt. Me conte mais, por favor. Dona Marta não aguenta mais eu a seguindo para baixo e para cima tentando bater papo.

Ele narrou mais um pouco sobre os jovens candidatos que estavam concorrendo naquele ano ao StarHunt, competição que as The Travellers ficaram em segundo lugar em nosso ano. De alguma forma bem esquisita, os 7Minutes To Paradise, os vencedores, nunca batiam nossos números. Mal conseguiam sucesso fora do Reino Unido.

"...E tinham esses três caras que eram muito bons" Christopher contava, animado. "Mas a gente só tinha mais uma vaga... Então o Will sugeriu que eles virassem um trio e eles toparam. Foi bem legal. Usaram vocês como exemplo porque vocês tinham acabado de se reunir antes do concurso e foi o que vocês passaram juntas que soldou vocês como uma unidade".

Ele continuou falando, mas eu parei de escutar. Enquanto ele narrava com muita animação todo o resto da história e como componentes passaram pela segunda seleção, eu lembrei como nós nos construímos como as viajantes: brigando, discutindo, morando juntas e descobrindo quem nós éramos umas para as outras.

— Amor... — interrompi-o. — Você acha que pode ser isso? Que as meninas tinham que estar aqui com a Hope?

Chris estalou os lábios do outro lado da linha e percebi que ele não ficou satisfeito com minha pergunta abrupta. Talvez meu relacionamento estivesse finalmente saindo da lua de mel.

"É, com certeza" ele ainda tentou ser gentil. "Todas vocês têm passado por poucas e boas ultimamente. Talvez precisem desse momento pra se alinharem de novo".

Respirei fundo como se um peso tivesse saído dos meus ombros naquele momento. Era resposta que eu precisava e, mesmo sem saber se elas poderiam se locomover em nossa direção, sentia uma esperança no fim do túnel.

Agora eu só precisava corrigir a minha desatenção com Christopher e torcer para que ele não estivesse muito chateado.

— É, acho que sim. Desculpa te interromper. Então eles foram muito bem nas seletivas e...? Você acha que eles vão longe na competição?

Christopher voltou a contar, com um pouco menos de empolgação no começo, e me esforcei e lhe dar toda a atenção. Quando desligamos, prometendo nos ver assim que fosse possível, enviei mensagem para cada uma, perguntando se elas não queriam se unir a nós na casa da areia.

Elas chegaram três dias depois porque Alika precisou de um pouco mais de tempo para preparar Kayin para ficar uns dias sem ela.

— Tisha? — Hope me chamou, mas quase não conseguia ouvir com o barulho do helicóptero. Percebi apenas pela movimentação de suas mãos. Larguei o livro que lia na rede da varanda e caminhei até ela, na espreguiçadeira. — Tão vindo sacanear a gente? O que é isso?

Ela, preocupada de que fossem fotógrafos repórteres invadindo para conseguir uma matéria, encarava o Héliporto acima da casa com olhar de pânico. Eu nem precisei responder a pergunta, pois, naquele momento, Piper desceu com uma mochila atravessada no peito, acenando animadamente para nós duas. Hope me encarou como se avaliasse meu plano e eu sorri para ela.

— Já chega de autoflagelação, não? — perguntei. Ela revirou os olhos. — Eu te amo, irmã. Só quero que você fique bem.

Ela soprou o ar com força.

— Eu sei — disse, rendida. — Obrigada.

As meninas desceram correndo, acompanhadas de três funcionários de Emilia, que reparei que estavam prontos para filmar qualquer respiro nosso. Dei um cutucão na costela de Hope no segundo anterior ao ver uma câmera apontada para nós. Ela ainda reclamou, mas foi soterrada por Piper e a Alika, que a abraçaram.

— Por que não viemos para cá na minha vez? — Hye me perguntou, esperando conseguir um espaço para adentrar no abraço.

— Você não pediu — brinquei.

Envolvi-a em meus braços e a carreguei até o bolo. Alguém se desequilibrou logo depois e Piper acabou caindo na piscina, levando Hope consigo. Piper passou o resto do dia de bico porque seu celular estava morto, até alguém chegar com um celular novo para ela.

Foram três dias de diversão em que vi minha irmã voltar ao normal, até que Hye tomou a iniciativa:

— A gente pode conversar sobre trabalho?

Eu me perguntava se escrever e falar de música à beira do mar naquela casa incrível e rodeado de algumas das pessoas que eu mais amava no mundo podia ser considerado trabalho e o tempo se mostrou ser uma negativa.

Em um pouco mais de uma semana, tínhamos planejado, escrito e composto todas as músicas do álbum sem nenhum esforço. Foi com diversão, bebidas, tranquilidade e amizade. Pareceu com nossas reuniões antes do contrato e da fama, sem pressão e sem pressa.

Sentia que tínhamos descoberto algo importante e que ninguém mais poderia nos derrubar.

Capítulo 8

Sinal dos Tempos

Nós nunca aprendemos, estivemos aqui antes
Por que estamos sempre presos e fugindo

Quando voltamos para Inglaterra, quase não consegui entrar em casa. Minha vontade era matar Christopher, cortar em pedacinhos bem pequenos e depois tacar fogo. O cheiro parecia infectar todo quarteirão, tudo por causa de um prato com resto de comida que ele esqueceu dentro da pia. Demorei cinco minutos com a mente piscando em imagens muito desagradáveis e senti como se retornasse aos meus dez anos de idade, calçando luvas de faxina e começando a tentar me livrar da podridão. Quando ouvi a porta de casa abrir, horas depois, não conseguir parar o que estava fazendo, ainda esfregando a pia com todos os produtos de limpeza que encontrei, água quente e sabão.

— Sai! — gritei com ele, assim que parou na porta da cozinha, encostando-se no batente para me olhar.

— O que foi? — percebi-o se aproximar. — Tô tentando falar contigo há horas. Você está esse tempo todo limpando?

Ele tentou segurar minhas mãos pela borda das luvas amarelas de limpeza que eu usava, mas apenas resultou em uma confusão de água e espuma.

— Você deixou comida aqui. Estragou minha cozinha. Ela nunca mais vai ser a mesma.

Christopher não pareceu se abalar com as minhas palavras, mas deu-me um pouco mais de espaço para continuar o que estava fazendo. Senti suas mãos em meu quadril e seu corpo moldou-se ao meu por trás, antes dos seus lábios encostarem em minha orelha.

— Desculpa, meu amor. Fiquei estressado com o trabalho novo e com você indo pra longe. Não vou fazer mais, tá bom?

Queria dizer que sua voz não provocava nenhum efeito em mim, mas ninguém acreditaria. Nem eu mesmo acreditava. Tentei fingir, mantendo minha postura rígida e concordando com a cabeça às suas palavras, mas, por dentro, a saudade fazia meu sangue borbulhar.

Ainda estava com raiva. Ainda queria picá-lo em pedacinhos.

Só que aí ele desceu os beijos para o meu pescoço e sentir aquele arrepio agradável subir pela minha espinha. Dei um empurrão de leve, tentando resistir.

— Para, Christopher!

Minha voz perdeu a firmeza e senti-o rir contra a minha pele. Manejou-me como uma boneca ela seus braços bem trabalhados, virando-me de frente para beijar-me a boca com saudade.

Havia uma parte de mim que exigia a resistência e foi essa que me fez dar-lhe três tapinhas molhados em seu ombro, mas Christopher colocou-me sentada sobre a mesa da cozinha e encaixou-se em mim e me derreti.

Era sempre assim, desde a primeira vez que me beijou. Podia estar com o problema que fosse, podia sentir a ansiedade traumática na beira do colapso, mas ele me beijava, me tocava, e parecia que nada mais no mundo importava. Era só eu e Christopher e todo o resto sumia da minha mente como um passe de mágica.

— Mais calma? — perguntou-me, assim que nossas respirações se acalmaram.

Sentia-me uma bagunça. Chris estava sem blusa, com a braguilha da calça aberta, encaixado em mim. Minha calça e a calcinha ainda estavam presas em meu tornozelo, a blusa estava embolada além do conserto e tinha um seio para fora, mas o cafuné que ele me fazia era tão bom...

— Ainda preciso limpar tudo — murmurei.

Ele riu baixinho e a boca estava de volta à minha, mais calma, mais relaxada, mais apaixonada, daquele jeitinho doce que mexia com todas as minhas entranhas, torcendo e revirando até que eu precisasse implorar por mais.

— É? — perguntou. — Será que você precisa de uma atenção mais demorada...?

E lá estávamos nós de novo.

Aquela foi a primeira vez que fizemos amor sem proteção. Com o passar dos meses que se seguiram, tornou-se mais comum. Nunca reclamei e também não conversamos sobre as implicações do que poderia acontecer, só deixamos como estava.

E obviamente não percebi que estávamos cometendo os mesmos erros novamente até que fosse tarde demais.

Durante seis meses, mais ou menos, tivemos paz. Os ataques as Travellers diminuíram, cada uma de nós encontrou conforto de alguma forma, superando nossas tribulações, mas cada uma em nossos dramas pessoais.

Hope se marcou para sempre. Desde seu vídeo íntimo vazado, não se relacionava com mais ninguém e nem ao menos parecia muito interessada.

Hyelin e Emilia tinham sofrido demais com o interesse da mídia e o relacionamento delas não resistiu. Estavam tentando serem amigas e terem uma relação de trabalho, sem muito sucesso.

Para Piper, que nunca fora atacada diretamente, ver o quanto as coisas eram cruéis conosco a fizeram amadurecer rapidamente, deixando de ser uma menina rebelde para uma mulher desconfiada.

Alika estava fugindo de Alex, que tinha saído da reabilitação e estava morando com Michael, apesar das minhas reclamações. E eu...

— As coisas estão tão estranhas — contei, acariciando sua barriga proeminente. — A gente nem tá conversando muito, eu até tento, mas ele responde rápido e fica na dele. O tempo que ele tem livre, vai pra academia e só.

Respirei fundo, cansada. Chelsea me abraçou pelos ombros, seus cinco meses de gravidez deixaram seu rosto um pouco mais redondo e seu sorriso ainda mais gentil.

— Ele deve estar estressado com o trabalho — tentou me acalmar. — Aposto que não é nada demais, vocês logo vão estar bem de novo.

— É, tem razão — suspirei. — E hoje não é dia disso, né?

Ela riu. Estávamos sentadas ao jardim da casa de meu irmão, crianças correndo de um lado para o outro para comemorar a festa de aniversário de um ano de Andy.

Verdade devia ser dita: meu sobrinho era um amor, mas estava se desenvolvendo um pouco mais lento que a maioria das crianças. Ainda não andava ou falava e tinha um pouco de receio que fosse a influência super protetora de Michael no crescimento dele.

— Oi! Posso roubar ela um pouco? — Minha irmã colocou as duas mãos em meus ombros e projetou seu queixo próximo de minha orelha direita, sorrindo para Chelsea. — Na verdade, por que você não vem com a gente?

Chelsea estranhou, mas acompanhou-nos enquanto Hope me puxava pela mão. Levou-nos para cozinha, onde havia uma grande bandeja de brigadeiros à nossa disposição. Michael e David já estavam lá, a borda das bocas sujas em um tom de marrom. Chelsea deu um soco na barriga de David.

— Mas nem pra me chamar.

Eu estraguei aquele grupo de ingleses para sempre.

— Encomendei para você — Meu irmão me disse, na maior cara de pau do mundo. Peguei uma das bolinhas em minha mão. — Tem uma moça na escola da mãe da Gabi que faz. A gente achou que todo mundo ia gostar.

Joguei o brigadeiro na boca e cuspi quase imediatamente. Minha língua se prostou para fora e fiz ânsia de vômito, sem me conter. Todo mundo me encarava de olhos arregalados, sem entender nada.

— Desculpa — percebi, tarde demais, a desfeita. — Mas tá parecendo uma pedra. Dá próxima vez, me pede que eu faço ou encomendo onde conheço, tá?

Michael parecia chateado, mas deu de ombros.

— Pra mim parece igual — Dave resmungou, como um grande apreciador de brigadeiros.

Deixei-o avaliando a bolinha para ver se encontrava alguma diferença e fui ao banheiro. Esbarrei com Christopher de babá de Alex e acenei com a cabeça, vendo-o levantar uma garrafa de água para mim. Achei que demorariam anos de casamento para que chegássemos naquele nível de indiferença, mas aqui estávamos nós, um pouco mais de um ano de relacionamento, nos ignorando sempre que podíamos.

Lavei a mão e a boca na pia do banheiro e ouvi 3 batidinhas características na porta. Abri, dando de cara com a feição preocupada de meu irmão.

— Tá tudo bem? — perguntou-me imediatamente.

Concordei com a cabeça, mas meneou seu rosto, me avaliando com aqueles grandes expressivos olhos castanhos que liam a minha alma do avesso.

— Não é nada — tentei fugir. — Sério.

Ele riu de lado, debochando da minha resposta porque sabia que não era a verdade.

— Sei que anda um pouco ausente, mas... — ele segurou meu braço com sua mão, me puxando para mais perto. — Você ainda é uma péssima mentirosa e sei que tem algo errado quando coloco meus olhos em você.

Ele foi educado o suficiente para me puxar para o quarto que dividia com Gabriela assim que ouviu o meu suspiro cansado de rendição.

— É o Christopher — confessei por fim. — Ele anda tão estranho. A gente não tem conversado direito, nem nada... As vezes a gente até namora, mas ele tá tão esquisito...

— Ai, vocês dois... — ele riu, se sentando na cama. Deu foi tapas ao seu lado, me convocando a ocupar o lugar. Sentei-me, deixando meus ombros caírem, mostrando o meu cansaço e minha fragilidade na frente da pessoa que sempre me protegeu. — Não acho que seja nada, Tish. A gente ainda tá meio perdido com a pausa da banda e ele tá esperando pra ver se renova o contrato com a StarHunt... Só deve estar com a cabeça cheia e não quer te incomodar.

Eu não estava convencida de que fosse apenas isso, mas dei o ombro e tentei parecer o mais sincera possível, porque queria com toda a minha força que aquilo fosse verdade.

— É, vai ver é só isso, né? — Sorri.

Meu irmão acreditou. Pediu desculpas pelo fiasco do brigadeiro e me deixou sozinha com meus pensamentos. Fiquei ali por vários minutos, deixei-me jogar na cama e refletir. Sabia que deveria voltar à festa em algum momento. Mal tinha conseguido falar com tia Liah, que estava agarrada a Andy, como uma vó coruja que era, mas tentei estender o momento ao máximo.

— Aí está você! — Piper pulou em cima de mim e da cama sem muito cuidado e senti uns respingos de algo caindo em cima de mim. — Ops! Seu irmão pediu pra eu te resgatar, disse que você estava chateadinha, então trouxe algo pra te animar.

Eu poderia ter dado um beijo na boca de Piper para agradecer, mas agarrei a taça de bebida que ela me oferecia e virei-a toda de uma vez, fazendo-a rir.

— Você salvou a minha vida — disse-lhe. — Quer um beijo? Vou ter que dar um beijo.

— Minha nossa, já está bêbada? — Ela riu, mas sua risada não demorou a murchar.

Os anos a tornaram um pouco mais séria, mas jamais triste. Piper manteve sua juventude com força, pegando um pouco de cada uma de nossas personalidades, suas companheiras de banda, sobretudo nossas coisas boas. De mim, conseguiu aprender a busca por fazer tudo sempre um pouco melhor, largando seu jeito despojado. De Hope, herdou a capacidade de parecer calma nos momentos mais desesperadores, nos passando segurança quando ela mesma não tinha. De Alika, tirou a responsabilidade. Não muita, mas melhorou bastante. Mas foi com Hye que aprendeu a ser mais séria, deixando as piadinhas constantes para os momentos propícios.

— Ei — chamei-a. — O que houve?

Meus problemas ficavam pequenos e irrelevantes quando minhas amigas precisavam de mim. E Piper, como a mais nova de nós, era nossa. Sempre protegida. Sempre com um sorriso no rosto e a juventude entalhada. Ela não precisava passar pelos sufocos que passamos. Nosso projeto era protegê-la a todo custo.

— Eu não sei... — deu de ombros. — Eu tenho pensado... Não. Deixa. É bobagem. É você que está triste.

Puxei-a para meus braços e a abracei com força, sentindo uma pequena resistência.

— Vai, boba. Fala comigo. Eu sou bem mais legal que as outras.

Ela riu e se afastou do meu abraço, abaixando a cabeça e deixando seu sorriso morrer mais uma vez.

— Você acha que tem algo estranho comigo, Tish? —perguntou. Quase pulei onde estava sentada, chocada com a pergunta. — É o que as pessoas tem falado. Que eu não sou normal porque nunca tô namorando com ninguém. Nunca tô interessada em ninguém...

— Quem tem falado isso, Pip?

— Minha irmã... Hope também — respondeu. Quase rosnei. Hope sempre foi ácida, mas os últimos acontecimentos a deixaram amarga como um quiabo. Ela me pegava de guarda baixa e me magoava algumas vezes também. Era um dos seus maiores dons. — Tem umas coisas que escreveram também.

— Não lê essas coisas, já te falei — ralhei com ela. — É claro que não tem nada errado com você. Vai ver você só não achou a pessoa certa. Antes de eu conhecer Christopher, também nunca tinha me interessado por ninguém, sabia? Até mesmo quando a gente terminou, sabe? E eu fui embora? Tive vários casinhos, mas nunca parei com ninguém.

Ela estava enrolando o lençol em seu indicador, demonstrando seu desconforto com seus próprios pensamentos.

— Mas tinha casos, né? — retrucou. — Eu nem isso.

Revirei os olhos de leve, rindo.

— Pip, se quiser ter um caso, vá e tenha um caso. Se diverte. Mas não faz isso porque os outros te disseram pra fazer, tá? Você pode não se interessar por ninguém também, se quiser. Se você está bem sozinha, fique de boas com isso. E se Hope te disser algo assim de novo, você manda ela à merda.

Ela riu, mas não pareceu tão convencida. Conversamos mais um pouco até Michael mandar Hyelin checar porque estávamos demorando tanto, então voltamos à festa. Sentei-me com Christopher pelo resto da tarde, tentando dar-lhe o benefício da dúvida e puxar papo, mas acabei conversando mais com Alex do que com ele. Voltamos para casa, ao fim do dia, quase em silêncio, mas ainda me esforcei um pouco mais e senti-o quase voltar para mim quando nos beijamos, tiramos nossas roupas e nos amamos.

E, no dia seguinte, Chris escapou pelos meus dedos mais uma vez, com desculpas e saindo de casa para seus compromissos.

Eu me esqueci como ele conseguia me deixar tão insegura.

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